{"id":46583,"date":"2023-08-11T11:25:18","date_gmt":"2023-08-11T14:25:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.fatosefotosnews.com.br\/hip-hop-completa-50-anos-rapper-diz-que-conscientizacao-marca-letras\/"},"modified":"2023-08-11T11:25:18","modified_gmt":"2023-08-11T14:25:18","slug":"hip-hop-completa-50-anos-rapper-diz-que-conscientizacao-marca-letras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.fatosefotosnews.com.br\/?p=46583","title":{"rendered":"Hip hop completa 50 anos: rapper diz que conscientiza\u00e7\u00e3o marca letras"},"content":{"rendered":"<p>Pesquisadores dizem que\u00a0a origem da cultura <em>hip hop<\/em> est\u00e1 relacionada com as festas organizadas no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70 por jovens afro-americanos que residiam no bairro do Bronx, em Nova York.\u00a0Embora esse tenha sido um processo lento, um desses eventos \u00e9 hoje celebrado como pedra fundamental. Em 11 de agosto de 1973, h\u00e1 exatos 50 anos, um edif\u00edcio de 102 unidades, situado no n\u00famero 1.520 da Avenida Sedgwick, testemunhou grande mobiliza\u00e7\u00e3o para marcar a volta \u00e0s aulas.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1548470&#038;o=node\" style=\"width:1px;height:1px\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1548470&#038;o=node\" style=\"width:1px;height:1px\"><\/p>\n<p>A festa foi organizada pelo DJ Kool Herc, que comandou os toca-discos, enquanto B-boys e B-girls dan\u00e7avam e os MCs agitavam o p\u00fablico. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o edif\u00edcio que sediou a agita\u00e7\u00e3o daquela juventude foi reconhecido em 2007 como o &#8220;ber\u00e7o do <em>hip hop<\/em>&#8221; pelo Escrit\u00f3rio de Parques, Recrea\u00e7\u00e3o e Preserva\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica do Estado de Nova York.<\/p>\n<p>Curiosamente, em menos de quatro meses, o <em>rapper<\/em> MV Bill tamb\u00e9m completa 50 anos. Enquanto o <em>hip hop<\/em> surgia no Bronx, nascia um menino negro na Cidade de Deus, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. Ele se tornaria um dos precursores\u00a0do movimento que, inspirado naquele caldo cultural da periferia de Nova York, acabou se instalando\u00a0no Brasil a partir da d\u00e9cada de 80. No fim do ano passado, foi apresentado seu novo \u00e1lbum <em>Dr. Drill<\/em>, onde faz novas apostas r\u00edtmicas sem perder de vista a cr\u00edtica social e o chamado \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o, marcas de suas letras.<\/p>\n<p>Bill n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 rapper multipremiado, tendo se enveredado ainda por outras \u00e1reas como o audiovisual e a literatura. Junto com o produtor cultural Celso Athayde e a artista Nega Gizza, \u00e9 tamb\u00e9m fundador da Central \u00danica de Favelas (Cufa), considerada a maior organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental do mundo que atua desenvolvendo projetos em comunidades. Al\u00e9m disso, carrega a experi\u00eancia de ter integrado em 2008 a primeira forma\u00e7\u00e3o do Conselho Curador da\u00a0<strong>Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o<\/strong> (<strong>EBC<\/strong>), \u00f3rg\u00e3o composto por integrantes da sociedade civil extinto em 2016 por medida provis\u00f3ria assinada pelo ent\u00e3o presidente Michel Temer.<\/p>\n<p>Nessa entrevista \u00e0\u00a0<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>, ele compartilha perspectivas constru\u00eddas ao longo de toda a trajet\u00f3ria. Em suas respostas, o <em>rapper<\/em> revela olhar atento para transforma\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o social. Ele v\u00ea o enfraquecimento do poder\u00a0da TV, mas faz um alerta sobre a internet: &#8220;o algoritmo s\u00f3 apresenta o que mais est\u00e1 em voga&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; Desde o seu surgimento, o <em>hip hop<\/em> precisou lutar por espa\u00e7o e hoje existem diversos festivais espec\u00edficos de <em>rap<\/em>, por exemplo, o que n\u00e3o era comum no passado. O Minist\u00e9rio da Cultura prop\u00f4s instituir o 11 de agosto como o Dia Nacional do <em>Hip-Hop<\/em>. Como voc\u00ea avalia este momento? D\u00e1 pra dizer que o<em> hip hop<\/em> garantiu seu espa\u00e7o ou essa \u00e9 uma luta permanente?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; Vejo que teve um crescimento muito grande. Avan\u00e7ou bastante, principalmente em uma discuss\u00e3o que, para mim, era totalmente infundada: se o <em>rap<\/em> \u00e9 ou n\u00e3o uma m\u00fasica. Acho que ao longo dos anos se provou que <em>rap<\/em> sim \u00e9 m\u00fasica, s\u00f3 que tem uma forma diferente de fazer. Voc\u00ea pode fazer com aux\u00edlio de DJ, que a\u00ed voc\u00ea fica na parte eletr\u00f4nica. Mas j\u00e1 t\u00eam in\u00fameras experi\u00eancias que misturam o<em> rap<\/em> com banda. Eu tenho tr\u00eas ou quatro projetos assim. Houve\u00a0um pre\u00e7o que a gente teve que pagar l\u00e1 atr\u00e1s para que hoje pud\u00e9ssemos usufruir disso sem ter que ficar explicando que \u00e9 m\u00fasica. E isso falando da m\u00fasica <em>rap<\/em>. Podemos tamb\u00e9m falar mais do<em> hip hop<\/em> como movimento\u00a0enquanto cultura que cont\u00e9m quatro elementos: o <em>rap<\/em>, o <em>DJ<\/em>, o <em>break dance<\/em> e o grafite. O <em>rap<\/em> \u00e9 s\u00f3 um desses elementos. E tem gente que ainda chama a m\u00fasica de <em>hip hop<\/em>. \u00c9 verdade que h\u00e1\u00a0muitos eventos rolando, muitos festivais. Mas muitos deles que abrigam somente um dos quatro elementos que \u00e9 o <em>rap<\/em>. S\u00e3o poucos os festivais que trazem o <em>hip hop<\/em> como um todo. Que t\u00eam dan\u00e7a, grafite, <em>DJ<\/em>. Falta um pouco disso ainda no Brasil. Talvez ocorra\u00a0quando a gente tiver pessoas nossas\u00a0trabalhando n\u00e3o somente na parte musical,\u00a0como <em>rappers<\/em> e M<em>Cs<\/em>, mas tamb\u00e9m nos bastidores, na curadoria de eventos, captando verba e sendo dono do evento. Acho que isso vai fazer com que a gente coloque o <em>hip hop<\/em> como um todo em evid\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; No ano que vem teremos olimp\u00edadas e, pela primeira vez, o <em>break<\/em>, que \u00e9 a dan\u00e7a do movimento <em>hip hop<\/em>, ser\u00e1 uma modalidade ol\u00edmpica. O que voc\u00ea acha desse movimento? Isso fortalece o <em>hip hop<\/em> ou precisa ser olhado com cautela?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; O <em>break dance<\/em> talvez seja o elemento menos reconhecido da cultura <em>hip hop<\/em>. Falando bem a verdade, os grafites s\u00e3o bem reconhecidos e bem procurados quando algu\u00e9m quer fazer uma pintura na fachada de sua casa. Os <em>DJs<\/em> tocam em tudo que\u00a0\u00e9 lugar. Tem <em>DJ<\/em> que ficou famoso no mundo inteiro. E o <em>rap<\/em> est\u00e1 em primeiro lugar nas plataformas. J\u00e1 o <em>break<\/em>, os <em>B-boys<\/em> e <em>B-girls<\/em> n\u00e3o t\u00eam tanta visibilidade assim. Ent\u00e3o, estarem dentro de uma competi\u00e7\u00e3o ol\u00edmpica vai coloc\u00e1-los em evid\u00eancia. E acho que em nenhum momento vai tirar a for\u00e7a do break que vem na rua, que \u00e9 completamente diferente. \u00c0s vezes tem uma batalha de rua ou \u00e0s vezes \u00e9 s\u00f3 dan\u00e7ar, s\u00f3 exercitar o grupo ou s\u00f3 entrar em contato com o movimento.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; A gente sabe que todo o estilo musical sofre transforma\u00e7\u00f5es ao longo do tempo e n\u00e3o \u00e9 diferente com o <em>rap<\/em>. Mas as letras do <em>rap<\/em> sempre estiveram muito vinculadas a tem\u00e1ticas sociais, chamando aten\u00e7\u00e3o para as demandas da periferia. Nesst momento, a gente tem alguma quest\u00e3o espec\u00edfica que est\u00e1 mais em evid\u00eancia? O <em>rap<\/em> que se faz hoje tem alguma peculiaridade que o faz ser diferente do que se fazia tempos atr\u00e1s?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; O <em>rap<\/em> se tornou conhecido. E com o conhecimento houve um pouco do esvaziamento desse discurso, na medida em que a gente tem tamb\u00e9m jovens de classe m\u00e9dia, de fam\u00edlias mais abastadas, jovens brancos fazendo rima e fazendo sucesso. E, com isso, muitos assuntos acabam saindo de pauta. Isso acontece com a quest\u00e3o racial e a quest\u00e3o da viol\u00eancia. Porque s\u00e3o jovens que n\u00e3o v\u00eam necessariamente desse tipo de realidade, n\u00e3o convivem com esses assuntos. S\u00e3o temas que n\u00e3o est\u00e3o mais t\u00e3o presentes como j\u00e1 estiveram outrora. Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o tenha gente da atualidade fazendo bons trabalhos, trazendo essas quest\u00f5es. Tem, mas tem que garimpar porque sen\u00e3o o algoritmo s\u00f3 apresenta o que est\u00e1 fazendo sucesso e o que mais est\u00e1 em voga. S\u00e3o <em>raps<\/em> que s\u00f3 falam de amor, de divers\u00e3o, de ostenta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 at\u00e9 algumas letras denegrindo a imagem feminina. Quando eu quero fazer uma <em>playlist<\/em> com m\u00fasicas que falam de determinados assuntos, eu tenho que garimpar os trabalhos atuais ou recorrer \u00e0s m\u00fasicas mais antigas. Mas esse \u00e9 um caminho natural por conta do crescimento do <em>rap<\/em>. Eu acompanho bastante a cena norte-americana e a cena do <em>hip hop<\/em> europeu. Tamb\u00e9m vejo que eles acabaram indo nessa dire\u00e7\u00e3o. Acho que o crescimento de qualquer movimento, de qualquer cena, acaba trazendo esse lado mais <em>pop<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; Mas o que faz com que esse seja um caminho natural?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; Isso vai desde os contratantes que preferem os artistas que t\u00eam essa cara e essa forma mais <em>pop<\/em>. E acho que o p\u00fablico tamb\u00e9m tem influ\u00eancia muito grande nisso, na medida em que faz suas escolhas de qual artista vai ouvir. Hoje, a gente n\u00e3o tem t\u00e3o forte a cultura do jab\u00e1, como era quando o artista pagava para tocar no r\u00e1dio. Tamb\u00e9m n\u00e3o vivemos mais no tempo em que a m\u00fasica s\u00f3 vai ser sucesso se for trilha sonora de uma novela. Hoje, muita coisa que faz sucesso sequer aparece na grande m\u00eddia. Tem coisa que nunca apareceu na televis\u00e3o e \u00e9\u00a0super sucesso, como resultado do nosso <em>like<\/em>, do clique nas pessoas. Ent\u00e3o se um grupo de pessoas pretas da favela d\u00e1\u00a0um clique no artista que nunca ligou para elas, est\u00e3o exaltando algu\u00e9m que nunca estar\u00e1 preocupado com a sua quest\u00e3o social e racial. Acho que falta um pouco dessa consci\u00eancia. Somos um p\u00fablico grande e forte, podemos levantar qualquer artista. Podemos levantar qualquer pessoa, qualquer <em>influencer<\/em>. Mas a falta de consci\u00eancia pode te levar a clicar na pessoa errada. Tem gente na favela clicando em racista, clicando em fascista, clicando em\u00a0pessoa que \u00e9 contra a nossa exist\u00eancia. Ent\u00e3o a gente tem que estar atento a isso.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; Recentemente, o <em>rapper<\/em> mineiro Djonga respondeu a um f\u00e3 nas redes sociais, ap\u00f3s ser criticado por ter lan\u00e7ado um novo \u00e1lbum mais leve, abordando menos temas pol\u00edticos. Ele rebateu dizendo que suas m\u00fasicas antigas s\u00e3o eternas e est\u00e3o dispon\u00edveis para ser ouvidas, mas que \u00e9 legal explorar outros assuntos. Existe, em alguns momentos, press\u00e3o de parte do p\u00fablico para limitar o <em>rap<\/em> a uma coisa s\u00f3?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; Eu j\u00e1 sofri muito isso, nunca levei a s\u00e9rio. Nunca deixei isso me interromper ou interferir na minha criatividade. Lancei meu primeiro disco\u00a0<em>Traficando Informa\u00e7\u00e3o<\/em>, em 2000. E depois, as pessoas come\u00e7avam procurando em todos os discos a m\u00fasica <em>Soldado do Morro<\/em>. Todo disco que era lan\u00e7ado, a pessoa ia procurar <em>Soldado do Morro<\/em> l\u00e1. Mas n\u00e3o d\u00e1 para fazer m\u00fasicas como essa assim de uma hora para outra. Ali, eu vivi um momento espec\u00edfico, \u00a0morando numa Cohab dentro da Cidade de Deus, quase n\u00e3o sa\u00eda de casa. Ent\u00e3o a minha janela virava uma tela de cinema, onde eu ficava vendo acontecer tudo aquilo que narrei. Eu tinha um tipo de viv\u00eancia. E hoje nem sei se conseguiria fazer uma m\u00fasica como essa, cheia de verdade. Quem quiser ouvir uma letra minha como <em>Soldado do Morro<\/em>, a m\u00fasica est\u00e1 l\u00e1, em todas as plataformas. Est\u00e1 dispon\u00edvel a hora que voc\u00ea quiser. Mas, como artista, preciso ter a criatividade liberada para falar de outros assuntos, ou at\u00e9 para falar desse assunto de outras formas. No caso do <em>Soldado do Morro<\/em>, ainda fiz mais duas m\u00fasicas que dialogam entre si: <em>Soldado Morto<\/em> e <em>Soldado Que Fica<\/em>. Mas sem press\u00e3o. Eu mesmo senti que dava para fazer, que era uma necessidade minha. Isso n\u00e3o quer dizer que eu s\u00f3 vou falar desse assunto. Eu tenho m\u00fasicas que falam de relacionamento, tenho m\u00fasicas sobre entretenimento. Acho que tem que ser assim mesmo. Mas sei qual \u00e9 a minha raiz. Se voc\u00ea se referir a mim, n\u00e3o vai falar: &#8220;o Bill \u00e9 aquele cara, canta a m\u00fasica <em>A Noite<\/em>&#8220;. N\u00e3o. Voc\u00ea vai falar: &#8220;o Bill \u00e9 o cara que canta <em>Soldado do Morro<\/em>, que canta <em>S\u00f3 Deus Pode Me Julgar<\/em>&#8220;. Essa \u00e9 a minha raiz. Eu sinto isso que me caracteriza. O que n\u00e3o quer dizer que eu tamb\u00e9m n\u00e3o possa ter uma m\u00fasica divertida como <em>A Noite<\/em>. Acho muito importante ter essa diversidade musical dentro de cada artista. N\u00e3o precisa ter um artista, um <em>rapper<\/em>, que s\u00f3 sabe cantar m\u00fasica rom\u00e2ntica ou s\u00f3 fa\u00e7a m\u00fasica festeira, e um outro que s\u00f3 faz m\u00fasica triste, social. Eu acho que voc\u00ea pode costurar e transitar por todos esses temas, sem ficar preso a\u00a0um s\u00f3.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil &#8211;\u00a0<\/strong>Eventualmente, ouvimos pessoas tentando desqualificar uma cr\u00edtica dizendo algo como &#8220;Falar \u00e9 f\u00e1cil, quero ver colocar a m\u00e3o na massa&#8221;. E voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um <em>rapper<\/em> que se limitou a escrever e cantar. Como ativista, voc\u00ea passou a liderar projetos sociais e fundou a Cufa. Qual a import\u00e2ncia de articular o discurso com esse trabalho buscando transformar a vida de pessoas da periferia?<\/p>\n<p>A Cufa\u00a0foi uma grande oportunidade que tive de colocar em pr\u00e1tica aquilo que estava discursando nas minhas m\u00fasicas. L\u00e1 no in\u00edcio de tudo, com o Celso Athayde e a Nega Gizza, a gente estava fazendo algumas oficinas e aquilo foi crescendo. Como n\u00e3o tinha nenhum trabalho governamental capaz de alcan\u00e7ar o jovem da periferia, o nosso trabalho chegou como uma bomba, como\u00a0grande salva\u00e7\u00e3o, grande territ\u00f3rio de possibilidade para quem n\u00e3o tinha nenhuma. Com o crescimento do trabalho, come\u00e7amos\u00a0a ir para outros estados. E a cada lugar, fui percebendo que a gente tamb\u00e9m foi criando novas lideran\u00e7as. Logo percebi que chegou um momento em que n\u00e3o precisava mais estar \u00e0 frente de tudo.\u00a0J\u00e1 t\u00ednhamos\u00a0constru\u00eddo lideran\u00e7as que poderiam me substituir. Ent\u00e3o, hoje tem oito anos que n\u00e3o fa\u00e7o mais parte da Cufa. Continuo entusiasta da ideia, continuo amigo de todas as pessoas, mas parei para cuidar da minha vida, da minha sa\u00fade, da minha m\u00fasica, da minha carreira. Mas sempre participando quando posso. Vejo claramente a diferen\u00e7a dos lugares que abrigam projetos sociais para os lugares que n\u00e3o t\u00eam esses projetos. N\u00e3o estou dizendo s\u00f3 sobre os projetos da Cufa, mas\u00a0em geral. Nesses locais, a incid\u00eancia do jovem indo para criminalidade \u00e9 muito menor. N\u00e3o estou dizendo que n\u00e3o tenha, mas \u00e9 muito menor. Onde esses projetos n\u00e3o chegam, infelizmente ainda h\u00e1\u00a0muito jovem que acha que o tr\u00e1fico de drogas \u00e9 um meio de ascens\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; Falta um trabalho mais incisivo do Estado?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; Uma das coisas que me preocupavam muito,\u00a0quando eu estava na Cufa, era a gente n\u00e3o parecer que queria substituir o Poder P\u00fablico. E sim mostrar que existe uma lacuna na falta de pol\u00edticas p\u00fablicas, que eles n\u00e3o implementam. Ou de pol\u00edticas p\u00fablicas que s\u00e3o implementadas, mas n\u00e3o chegam a esses lugares. Em alguns momentos, a gente at\u00e9 se colocou como porta-voz, para fazer essa liga\u00e7\u00e3o entre as pol\u00edticas p\u00fablicas nas favelas, que est\u00e3o necessitando dessas pol\u00edticas. Em alguns momentos deu certo, mas em outros n\u00e3o, porque era feito pensando em voto, pensando em elei\u00e7\u00e3o, sempre de forma muito eleitoreira. Sou um cara que nunca fez\u00a0campanha para ningu\u00e9m. Sou pol\u00edtico-social. Tenho meus posicionamentos pol\u00edticos. Mas levantar bandeira para pol\u00edtico e pedir voto\u00a0nunca foi a minha onda. E dentro da Cufa, tamb\u00e9m n\u00e3o podia deixar que descambasse para esse lado. Sempre tomei muito cuidado pra n\u00e3o querer substituir o Poder P\u00fablico e nem deixar que ele nos engolisse.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211;\u00a0No seu \u00e1lbum mais recente, <em>Dr. Drill<\/em>, voc\u00ea trata de duas quest\u00f5es que aparecem tamb\u00e9m em m\u00fasicas de outros momentos de\u00a0sua carreira: a import\u00e2ncia de jovens da periferia valorizarem a educa\u00e7\u00e3o e a ilus\u00e3o da cultura armamentista. Qual a import\u00e2ncia de insistir na discuss\u00e3o dessas quest\u00f5es?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; Nesse trabalho, explorei duas novas vertentes do <em>rap<\/em> que est\u00e3o bem em evid\u00eancia na atualidade. Uma delas \u00e9 o <em>trap<\/em> e a outra \u00e9 o <em>drill<\/em>. S\u00f3 que fiz \u00e0 minha maneira, do meu jeito, sem voz robotizada. Para esse disco, eu quis\u00a0trazer tamb\u00e9m algumas parcerias com gente jovem, que realiza um trabalho que gosto. Tem ali o Major RD, o Froid, o Lord, o Rod. E a abertura do disco \u00e9 feita pelo Erik Skratch. Ent\u00e3o, foi muito importante juntar essa galera toda, que \u00e9 de outra gera\u00e7\u00e3o e de outro momento, para trabalhar comigo. E ainda tem Rashid. A\u00ed a gente traz esses assuntos que n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o em voga. Na m\u00fasica <em>Aulas e Palestras<\/em>, juntamos tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es para falar da import\u00e2ncia da escolaridade. Na m\u00fasica <em>Soldadrill<\/em>, a gente fala dessa ilus\u00e3o dos jovens de favela, que ainda acham que ser criminoso \u00e9 legal, que entrar paa ro crime \u00e9 tirar algum tipo de onda. Quando morre, \u00e9 a fam\u00edlia que vai chorar. E quem estava junto, na situa\u00e7\u00e3o de amigo, n\u00e3o vai nem ligar. No m\u00e1ximo, vai colocar uma camisa com a sua foto em um baile da semana, que vem pra dizer que est\u00e1 com saudade de voc\u00ea. Vai colocar uma foto no facebook. Ent\u00e3o trazer esses temas em cima desses ritmos, al\u00e9m de ser uma parada interessante, mostra que estou antenado com as novas vertentes que o <em>rap<\/em> traz. E tamb\u00e9m mostra versatilidade, capacidade de rimar em v\u00e1rios tipos de batida e de se conectar com as novidades que est\u00e3o chegando. Talvez eu seja o cara da minha gera\u00e7\u00e3o, da <em>old school<\/em> do <em>rap nacional,<\/em>\u00a0que mais fez colabora\u00e7\u00f5es com novos artistas. Isso \u00e9 algo que carrego como um dos meus trof\u00e9us.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; No ano passado, voc\u00ea lan\u00e7ou o livro <em>A Vida Me Ensinou A Caminhar<\/em>, reunindo cr\u00f4nicas sobre suas experi\u00eancias. D\u00e1 pra dizer que esse trabalho liter\u00e1rio se relaciona com a sua produ\u00e7\u00e3o musical de alguma forma?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; Acho que est\u00e3o muito ligados, apesar de um livro ser completamente diferente de uma m\u00fasica na hora da escrita. No livro, d\u00e1 pra ser mais aprofundado. Mas, apesar de ser literatura, \u00e9 um livro tamb\u00e9m muito musical, porque ao fim\u00a0de cada cap\u00edtulo tem um QR Code que te leva para alguma m\u00eddia relacionada \u00e0\u00a0hist\u00f3ria que voc\u00ea acabou de ler. E muitas dessas m\u00eddias s\u00e3o musicais. E dentro das hist\u00f3rias, eu tamb\u00e9m cito muitas m\u00fasicas. \u00c9 um livro cheio de informa\u00e7\u00f5es musicais. E que registra, deixa para a eternidade, como foi o meu come\u00e7o. Como eu conheci o <em>rap<\/em>, como eu me envolvi, como me inseri na cultura <em>hip hop<\/em>. E a minha hist\u00f3ria pessoal se confunde muito com a constru\u00e7\u00e3o impressionante do <em>rap<\/em> aqui no Rio de Janeiro. Ent\u00e3o, o livro \u00e9 interessante por conta disso. Dentro do livro, eu falo de coisas e alguns assuntos como nunca falei na minha vida para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Para quem faz <em>rap<\/em> do jeito que fa\u00e7o, que \u00e9 o <em>rap<\/em> hist\u00f3ria, percebe que no livro \u00e9 poss\u00edvel ir al\u00e9m da m\u00fasica. Quando fa\u00e7o uma m\u00fasica tipo <em>Soldado do Morro<\/em>, conto a hist\u00f3ria ali dentro do que o ritmo me permite. Conto a hist\u00f3ria respeitando o tamanho da m\u00fasica. Agora quando escrevo um livro, o texto \u00e9 muito mais solto. Eu posso me aprofundar muito mais. Eu posso ser muito mais detalhista. E tem gente que j\u00e1 acha os meus <em>raps<\/em> cheios de detalhes. Mas, no livro, a gente pode detalhar muito mais. E tem outra vantagem: aqui no Brasil, nosso povo \u00e9 mais acostumado com m\u00fasicas que t\u00eam mais melodia. E, \u00e0s vezes, o tipo de<em> rap<\/em> que fa\u00e7o n\u00e3o tem tanta melodia, ele \u00e9 mais falado. E n\u00e3o \u00e9 todo mundo que tem ouvido preparado para isso. Eu conhe\u00e7o gente mais velha que diz que falo muito r\u00e1pido, que n\u00e3o consegue pescar. Essa mesma pessoa, quando tem acesso ao livro, assimila totalmente o conte\u00fado. Ent\u00e3o, para mim, al\u00e9m de ser uma forma de extravasar, acaba sendo um jeito\u00a0de me comunicar melhor, mais amplamente.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211;\u00a0Recentemente, voc\u00ea comentou sobre a desconfian\u00e7a dos seus familiares com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoria do livro.<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; \u00c9 muito triste lan\u00e7ar um livro e os familiares questionarem se foi eu mesmo que escrevi ou se tive ajuda de algu\u00e9m. Mas n\u00e3o levei para o cora\u00e7\u00e3o, porque eles tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o acostumados a ver muitos escritores pretos. Eu j\u00e1 li muitos escritores pretos, que\u00a0gosto da atualidade. Mas o que me levou a ser um artista multifacetado foram as refer\u00eancias do <em>rap<\/em>. Todos os caras que eu admirava, da minha gera\u00e7\u00e3o, se transformaram em atores, apresentadores de programa, diretores de cinema e alguns deles tamb\u00e9m lan\u00e7aram livros. Ent\u00e3o, quando vi que dava para ser <em>rapper<\/em>, mas tamb\u00e9m dava para ser multifacetado, eu falei &#8216;eu quero isso da minha vida&#8217;. J\u00e1 tenho ideia de um novo livro para o futuro. Mas divulgar um livro \u00e9 muito dif\u00edcil. N\u00e3o tem muito espa\u00e7o na m\u00eddia tradicional. As pessoas tamb\u00e9m n\u00e3o entendem o livro como uma forma de adquirir conhecimento, acham que \u00e9 caro. Mas, \u00e0s vezes, custa o mesmo pre\u00e7o de um balde de cerveja. E elas n\u00e3o entendem que o livro tamb\u00e9m \u00e9 para alimentar a mente, outra parte do seu corpo. Por isso, o per\u00edodo de lan\u00e7amento de um livro no Brasil, ainda mais independente, pode levar at\u00e9 tr\u00eas anos. Ainda vou correr bastante para fazer mais coisas com esse livro. Mas at\u00e9 pelos resultados j\u00e1 alcan\u00e7ados, me deu muita vontade de come\u00e7ar a pensar numa sequ\u00eancia. Porque eu fui parar para pensar, cara, e h\u00e1\u00a0v\u00e1rios outros contos t\u00e3o interessantes quanto esses.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil <\/strong>&#8211; Contornar limita\u00e7\u00f5es da m\u00eddia tradicional \u00e9 inclusive uma das miss\u00f5es da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o. E voc\u00ea fez parte do Conselho Curador. A partir dessa experi\u00eancia, como voc\u00ea v\u00ea hoje o papel da comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; Penso sempre que a imprensa precisa ser livre,\u00a0ter total liberdade. Talvez a Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o seja uma das poucas oportunidades que a gente tem de dizer o que pensa, de os artistas poderem expor\u00a0sua arte. \u00c9 um dos poucos lugares que pode ter uma programa\u00e7\u00e3o isenta do poder do dinheiro das grandes corpora\u00e7\u00f5es da\u00a0propaganda. Mas ela n\u00e3o pode sofrer interfer\u00eancia governamental. Tem que trabalhar com muita independ\u00eancia e liberdade. E inclusive para criticar o pr\u00f3prio governo, se for o caso. Infelizmente, o \u00faltimo per\u00edodo foi bem desastroso. No \u00faltimo governo, achei at\u00e9 que fosse acabar. Que bom que n\u00e3o acabou. Tor\u00e7o para que exista bastante liberdade para fazer um jornalismo do jeito que tem que ser:\u00a0livre.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; Em 2006, voc\u00ea produziu o aclamado document\u00e1rio <em>Falc\u00e3o &#8211; Meninos do Tr\u00e1fico<\/em>, que retrata a coopta\u00e7\u00e3o de jovens pelo tr\u00e1fico de drogas e traz entrevistas com\u00a0alguns deles. \u00c9\u00a0um document\u00e1rio que aborda uma realidade social preocupante, muitas vezes \u00e9 produzido pensando em pressionar pela transforma\u00e7\u00e3o dessa realidade, em alertar para um problema, em conscientizar. Voc\u00ea acha que passando todo esse tempo, quase 20 anos, algo mudou?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211; Quando a gente lan\u00e7ou o document\u00e1rio houve uma como\u00e7\u00e3o nacional. Muita gente se mostrou preocupada. Mas foi uma como\u00e7\u00e3o que acabou passando. Virou uma como\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea. Eu acho que ali a gente, como sociedade, perdeu grande oportunidade de olhar mais para a juventude. N\u00e3o tinha como tirar da criminalidade aqueles jovens que me deram entrevista, n\u00e3o tinha como tirar quem estava no tr\u00e1fico naquele momento. Mas podia ser feito um trabalho para coibir a entrada de novos jovens, por meio\u00a0de projetos. Tentar se antecipar \u00e0 criminalidade. N\u00e3o deixar que o crime virasse algo atrativo para a\u00a0juventude. Nada foi feito. A pol\u00edtica de guerra e de combate \u00e0s drogas se demonstra fracassada, na medida em que a viol\u00eancia s\u00f3 aumenta. N\u00e3o existe um plano de intelig\u00eancia. N\u00e3o estou nem falando de intelig\u00eancia s\u00f3 para prender, mas para fazer com que os jovens n\u00e3o entrem na criminalidade. Porque uma vez que ele entra no crime, \u00e9 mais dif\u00edcil resgatar esse jovem. Ent\u00e3o precisava de um trabalho governamental de muita for\u00e7a, para fazer com que mais jovens estivessem dentro da escola e em projetos sociais. Mas parece que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o interessante salvar esses jovens. E isso virou uma tarefa mais nossa, do morador, de agentes sociais espalhados pelo Brasil. Isso deveria ser uma preocupa\u00e7\u00e3o do governo. Por isso que sou um grande incentivador de pessoas de favela e de pessoas pretas se candidatarem a cargos p\u00fablicos. Como exigir de um pol\u00edtico branco, h\u00e9tero e rico que olhe para essas mazelas que existem\u00a0no Brasil? Ele n\u00e3o vai olhar, n\u00e3o vai se sensibilizar. Ent\u00e3o precisamos de mulheres pretas em cargos p\u00fablicos, de pessoas de favela, de pessoas trans. Essas pessoas que sentem na pele o dia a dia.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; Voc\u00ea j\u00e1 havia feito uma cr\u00edtica nesse sentido sobre os impactos do filme <em>Cidade de Deus<\/em> (2002), dizendo que a comunidade ficou esquecida ap\u00f3s o sucesso. Faltou um olhar de como transformar essa realidade social?<\/p>\n<p><strong>MV Bill<\/strong> &#8211;\u00a0Uma das minhas cr\u00edticas \u00e9 que a a\u00e7\u00e3o policial ficou mais violenta, legitimada pela hist\u00f3ria do filme. Aquilo que foi chamado de fic\u00e7\u00e3o virou uma grande realidade. Quem morava naquele local &#8211; que existe e que n\u00e3o \u00e9 um local fict\u00edcio &#8211; sofreu o reflexo daquilo que foi mostrado. E parece que a mesma produtora que fez o filme est\u00e1 prestes a fazer uma s\u00e9rie com o mesmo nome. Podiam colocar um nome fict\u00edcio. Dependendo do que for contado nessa s\u00e9rie, vai acabar trazendo problemas de novo.<\/p>\n<p id=\"infocoweb_fonte\" class=\"infocoweb_fonte\">Fonte: <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-08\/hip-hop-completa-50-anos-rapper-diz-que-conscientizacao-marca-letras#c269f634-4781-4238-8e9b-bfcab46e8aef\" rel=\"noopener\">EBC GERAL<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores dizem que\u00a0a origem da cultura hip hop est\u00e1 relacionada com as festas organizadas no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70 por jovens afro-americanos que residiam no bairro do Bronx, em Nova York.\u00a0Embora esse tenha sido um processo lento, um desses eventos \u00e9 hoje celebrado como pedra fundamental. 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