{"id":60896,"date":"2023-11-15T09:47:21","date_gmt":"2023-11-15T12:47:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.fatosefotosnews.com.br\/africa-e-mae-do-hip-hop-diz-autor-do-1o-disco-do-movimento-no-brasil\/"},"modified":"2023-11-15T09:47:21","modified_gmt":"2023-11-15T12:47:21","slug":"africa-e-mae-do-hip-hop-diz-autor-do-1o-disco-do-movimento-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.fatosefotosnews.com.br\/?p=60896","title":{"rendered":"\u00c1frica \u00e9 m\u00e3e do hip hop, diz autor do 1\u00ba disco do movimento no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Quando recebeu o convite para gravar um disco, MC Who pensou que estava diante da realiza\u00e7\u00e3o de um sonho. Mas\u00a0a import\u00e2ncia do projeto que viria se tornar o vinil <em>Hip Hop Cultura de Rua<\/em> ultrapassou as proje\u00e7\u00f5es daquele jovem perif\u00e9rico, que trabalhava de <em>office boy<\/em>. As oito faixas que vieram a p\u00fablico em 1988 s\u00e3o hoje lembradas como a primeira grava\u00e7\u00e3o da cultura <em>hip hop<\/em> no Brasil.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1566252&#038;o=node\" style=\"width:1px;height:1px\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1566252&#038;o=node\" style=\"width:1px;height:1px\"><\/p>\n<p>A colet\u00e2nea, que reuniu membros dos diferentes grupos que, \u00e0 \u00e9poca, dan\u00e7avam e cantavam na Esta\u00e7\u00e3o S\u00e3o Bento do Metr\u00f4, no centro paulistano, foi pensada inicialmente com um disco da banda de MC Who, O Credo. \u201cA gente teve a sorte de ser protagonista de uma foto de capa na \u00e9poca do <em>Jornal da Tarde<\/em>\u201d, conta Who sobre como surgiu o convite.<\/p>\n<p>A banda, no entanto, n\u00e3o tinha ainda composi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias suficientes para fechar sozinha um disco. Foi assim que surgiu a ideia de convidar m\u00fasicos que estavam na cena que ganhava for\u00e7a com artistas de diversas partes da cidade. \u201cDialogando muito com o <em>punk<\/em>, que era um pouquinho mais velho que a gente, a gente disse: \u2018Uma colet\u00e2nea contempla todo mundo, e a\u00ed todas as gangues v\u00e3o aparecer\u2019\u201d, lembra. Segundo ele, o disco dever\u00e1 ser relan\u00e7ado em breve, com as faixas remasterizadas.<\/p>\n<p>O processo de aproxima\u00e7\u00e3o com a cultura <em>hip hop<\/em> trouxe, para o MC, muitas reflex\u00f5es sobre a identidade negra e a forma como a cultura, que atravessa periferias de todo o mundo, dialoga com essa forma\u00e7\u00e3o. \u201cA grande origem do <em>hip hop<\/em> \u00e9 uma m\u00e3e, que \u00e9 a m\u00e3e \u00c1frica, que \u00e9 o processo diasp\u00f3rico\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>Mais tarde, Who participou de outro momento importante da hist\u00f3ria do <em>hip hop<\/em> em S\u00e3o Paulo, que foi a expans\u00e3o das batalhas de MCs para a Pra\u00e7a Roosevelt, tamb\u00e9m no centro da cidade. Ali, ele esteve ao lado de figuras centrais da cultura no pa\u00eds, como Mano Brown, dos Racionais MC\u2019s. \u201cAqui \u00e9 um dos grandes ber\u00e7os do <em>rap<\/em> nacional, talvez o maior, mas a gente ainda tem muito a pesquisar\u201d, destaca.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=358126:grande_6colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">             <img data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/DI_llhvWG_SN2R9UAHV0_WYDa7c=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_6227_0.jpg?itok=5ijIM7dr\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP), 10\/11\/2023 - O rapper MC Who fala sobre a cultura Hip Hop na pra\u00e7a Roosevelt. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" class=\"flex-fill img-cover\">         <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/DI_llhvWG_SN2R9UAHV0_WYDa7c=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_6227_0.jpg?itok=5ijIM7dr\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP), 10\/11\/2023 - O rapper MC Who fala sobre a cultura Hip Hop na pra\u00e7a Roosevelt. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" class=\"flex-fill img-cover\">     <\/div>\n<p>  <!-- END scald=358126 --><\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">Em entrevista, MC Who conta que o disco <em>Hip Hop Cultura de Rua<\/em> ser\u00e1 relan\u00e7ado em breve, com as faixas remasterizadas\u00a0&#8211; <strong>Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=358126--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Desde ent\u00e3o, a cultura nunca mais saiu daquele espa\u00e7o. At\u00e9 hoje acontecem batalhas de rimas e de <em>slam<\/em> na pra\u00e7a, tamb\u00e9m conhecida pela cena do teatro independente. \u201cO <em>slam<\/em>, na nossa percep\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o inspirada pela cultura<em> hip hop<\/em> tamb\u00e9m. E tamb\u00e9m tem a batalha de rima aqui, j\u00e1 foi, j\u00e1 voltou, mas ela est\u00e1 sempre aqui, dialogando com o <em>skate<\/em>, que tamb\u00e9m \u00e9 algo que complementa a semi\u00f3tica da nossa ocupa\u00e7\u00e3o da rua\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para o MC, recuperar essa hist\u00f3ria ajuda tamb\u00e9m a lembrar nomes que acabaram apagados nas narrativas constru\u00eddas sobre o <em>hip hop<\/em> no Brasil ao longo dos anos. \u201c\u00c0s vezes eu brinco que o Sabotage [<em>rapper<\/em> paulistano] est\u00e1 dando bronca em todo mundo, dizendo: &#8216;Eu n\u00e3o quero ficar sentado sozinho aqui nesse Abu Simbel [templo eg\u00edpcio da antiguidade], nesse pante\u00e3o. Cad\u00ea o J.R. Brown? Cad\u00ea o Uzi? Cad\u00ea todo mundo?&#8217;\u201d, comentou em entrevista ao programa<em> Caminhos da Reportagem<\/em>, da <strong>TV Brasil<\/strong>.<\/p>\n<p>Confira os principais trechos da entrevista com MC Who.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: <em>Hip Hop Cultura de Rua<\/em>, a primeira colet\u00e2nea do g\u00eanero feita aqui no Brasil. MC Who, conta um pouco pra gente como \u00e9 que foi essa hist\u00f3ria. Era pra ser antes um disco da sua banda, do Credo, era isso?<br \/> <strong>MC Who:<\/strong> \u00c9 isso mesmo. A gente teve a sorte de ser protagonista de uma foto de capa na \u00e9poca do <em>Jornal da Tarde<\/em>. E, nas andan\u00e7as nas gravadoras, o Wagner Garcia, diretor da [gravadora] Eldorado na \u00e9poca, rec\u00e9m-chegado, viu e perguntou: \u201cVoc\u00ea \u00e9 poeta da rua?\u201d. Eu achei engra\u00e7ado, n\u00e9? Eu falei: &#8220;\u00c9, a gente faz poesia na rua&#8221;. E come\u00e7ou a conversar comigo, pediu dois dias, perguntou se tinha letra, o que a gente tinha pronto e disse: &#8220;Me d\u00e1 uns dois dias que eu vou falar com o chefe&#8221;.<\/p>\n<p>Foram os dois dias mais longos da minha vida, esperando essa resposta. At\u00e9 que veio a resposta positiva. Imagine, um cara que era <em>office boy<\/em>, de periferia, pais migrantes, oper\u00e1rios, e falar: &#8220;Vou gravar um disco&#8221;. Sendo que a gente n\u00e3o era cantor, n\u00e3o era nada disso. E assim come\u00e7a a hist\u00f3ria. Ele [o disco] se transforma numa colet\u00e2nea, numa perspectiva muito da cultura<em> hip hop<\/em>, j\u00e1 est\u00e1 se constituindo um movimento<em> hip hop<\/em>.<\/p>\n<p>Tem esse paradoxo, essa discuss\u00e3o desse bin\u00f4mio e sempre que eu tenho oportunidade eu esclare\u00e7o. O <em>hip hop<\/em> \u00e9 uma cultura. Uma cultura gigantesca, produtiva, criativa e din\u00e2mica. E o movimento \u00e9 organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, quer dizer, isso j\u00e1 veio de l\u00e1, o mito de origem da cultura<em> hip hop<\/em> est\u00e1 em 11 de agosto de 1973, com a festa que a Cindy Campbell junto com o seu irm\u00e3o Kool Herc desenvolveu. E, um ano depois, o Africa Bambaataa pega e inaugura a Zulu Nation, que \u00e9 para organizar isso de uma maneira sistem\u00e1tica, ter uma proposta de acolhimento daquelas manifesta\u00e7\u00f5es que aconteciam na rua, e tamb\u00e9m de se posicionar politicamente, na efervesc\u00eancia na d\u00e9cada de 1970. N\u00f3s temos ali j\u00e1 naquele momento p\u00f3s-a\u00e7\u00f5es afirmativas: Black Panthers, Black Explotation, quer dizer, todas as manifesta\u00e7\u00f5es culturais apontando para essa autonomia, esse protagonismo do corpo preto.<\/p>\n<p>A gente j\u00e1 tinha essa carga, essa provoca\u00e7\u00e3o transgressora da cultura. Ent\u00e3o, dialogando muito com o <em>punk<\/em>, que era um pouquinho mais velho que a gente, a gente disse: &#8220;Uma colet\u00e2nea contempla todo mundo, e a\u00ed todas as gangues v\u00e3o aparecer&#8221;. E veio outro desafio: como escolher? A gente parte das gangues de<em> break<\/em>, que \u00e9 a Back Spin, com o Tha\u00edde, o MC Jack e eu e C\u00f3digo 13, da Na\u00e7\u00e3o Zulu. Isso era uma coisa que transforma o <em>Cultura de Rua<\/em> na primeira colet\u00e2nea, porque ele \u00e9 o que contempla todos os elementos do <em>hip hop<\/em>, porque o <em>hip hop<\/em> n\u00e3o pode ser percebido por um elemento s\u00f3, o elemento s\u00f3 tem o nome dele: <em>breaking<\/em>, na \u00e9poca <em>break<\/em>, sem ser anacr\u00f4nico, mas revisitando esse momento,<em> break<\/em>, depois <em>breaking<\/em>, depois a pesquisa nos trouxe\u00a0a riqueza de informa\u00e7\u00f5es, a internet nos trouxe toda essa gama do que era praticado l\u00e1.<\/p>\n<p>A gente enfrentou muito tamb\u00e9m: &#8220;Ah, voc\u00eas est\u00e3o imitando os americanos.&#8221;\u00a0Depois, com essa trajet\u00f3ria que eu tive de pesquisa, vi que aconteceu na cena <em>black<\/em> do Rio, onde tinha discuss\u00e3o da turma do Tony Tornado e G\u00e9rson King Combo com os sambistas, aquela mat\u00e9ria de 76, hist\u00f3rica, dizendo o que est\u00e1 acontecendo. A gente tamb\u00e9m passou por um processo parecido. E, depois, com essa possibilidade de se organizar, principalmente intelectualmente, eu, com toda essa possibilidade de troca de informa\u00e7\u00f5es com outros praticantes do <em>hip hop<\/em>, chego \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o existe essa quest\u00e3o, porque n\u00f3s somos o mesmo povo diasp\u00f3rico.<\/p>\n<p>N\u00f3s passamos pelas mesmas trajet\u00f3rias de opress\u00e3o. Quer dizer, o <em>hip hop<\/em>, a gente n\u00e3o pode esquecer que ele tem uma m\u00e3e. A grande origem do <em>hip hop<\/em> \u00e9 uma m\u00e3e, que \u00e9 a m\u00e3e \u00c1frica, que \u00e9 o processo diasp\u00f3rico. Que eu n\u00e3o gosto, eu sou mais para o lado do Joel Rufino, eu falo que \u00e9 o deslocamento do corpo preto escravizado. Porque a di\u00e1spora \u00e9 uma quest\u00e3o heroica, da travessia de um deserto e tal, di\u00e1sporos, espalhar semeando. N\u00e3o, n\u00f3s viemos pra c\u00e1 trancados, nossos antepassados. Ent\u00e3o, a gente tem que entender que isso marca essas quest\u00f5es todas, dos apagamentos hist\u00f3ricos e tudo.<\/p>\n<p>O que o <em>hip hop<\/em> precisa e tem compromisso tanto de quando se originou h\u00e1 50 anos, h\u00e1 quase 40 no Brasil, a gente caminha para 40 anos no ano que vem, na minha percep\u00e7\u00e3o, porque a quest\u00e3o hist\u00f3rica precisa de um mito, ela precisa de marcos para poder se fundamentar, ficar consolidado e voc\u00ea dizer para as novas gera\u00e7\u00f5es. Esse compromisso com a matriz africana precisa estar sempre sendo renovado e reafirmado dentro da constru\u00e7\u00e3o da nossa cultura, que \u00e9 din\u00e2mica.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Muito se fala da Esta\u00e7\u00e3o S\u00e3o Bento, aqui, no centro de S\u00e3o Paulo, da import\u00e2ncia que\u00a0aquele espa\u00e7o tem para o <em>hip hop<\/em>, da Rua 24 de Maio, mas e a Pra\u00e7a Roosevelt tamb\u00e9m tem um papel nessa hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 verdade? Queria que voc\u00ea contasse um pouco como \u00e9 que essa pra\u00e7a se insere na hist\u00f3ria do <em>hip hop<\/em> e como \u00e9 que o <em>hip hop<\/em> ainda est\u00e1 aqui.<br \/> <strong>MC Who:<\/strong> Essa pergunta \u00e9 importante porque ela d\u00e1 espa\u00e7o para a gente lembrar\u00a0grandes figuras que n\u00e3o est\u00e3o mais com a gente, como o J.R. Brown. O J.R. Brown, o DJ Uzi, o Marcos Tadeu Tel\u00e9sforo, o grande letrista\u00a0DJ Uzi, autodidata na l\u00edngua inglesa, ele traduzia tudo para a gente entender o que estava acontecendo. E o J.R. Brown era um vision\u00e1rio, era um cara que estava \u00e0\u00a0frente do tempo.\u00a0N\u00f3s \u00e9ramos amigos, and\u00e1vamos juntos, dividindo tudo da pot\u00eancia. A gente n\u00e3o ficava s\u00f3 nas equipes de baile, apesar de a gente gostar tamb\u00e9m, a gente andava nas outras casas, lidava com outras tribos. E a gente entendia que o <em>hip hop<\/em> estava num caminho que era crescente, que ia ficar muito grande. A gente entendia que estava crescendo demais, que a S\u00e3o Bento j\u00e1 n\u00e3o suportava mais. E ali tudo adolescente, tudo muito, os horm\u00f4nios, aquela coisa, tinha\u00a0as quest\u00f5es de protagonismo.<\/p>\n<p>O <em>break<\/em>, que era a grande atra\u00e7\u00e3o, come\u00e7a a dividir essa aten\u00e7\u00e3o, e por uma caracter\u00edstica muito simples, porque o<em> break<\/em> precisa do corpo para se expressar, e o <em>rapper<\/em>, ele fala. Voc\u00ea v\u00ea, aqui, nessa entrevista, como a gente fala. Acabou que esse protagonismo das lentes tamb\u00e9m levou muito a essas discuss\u00f5es. E, principalmente, enquanto tinha a roda de <em>break<\/em>, os<em> rappers<\/em> ficavam batendo na lata do lixo, que era a nossa bateria eletr\u00f4nica, e cantando as suas novas letras, \u00e0s vezes, at\u00e9 improvisando ali, e isso teoricamente atrapalhava.<\/p>\n<p>Muita gente fala que \u00e9 uma briga, n\u00e3o \u00e9. Foi uma tens\u00e3o de espa\u00e7o. A\u00ed o J.R. falou assim: \u201cWho, pega os meninos, vamos subir para a Roosevelt, que l\u00e1 a pra\u00e7a \u00e9 s\u00f3 nossa, s\u00f3 do<em> rap<\/em>, e a gente vai tocar isso l\u00e1&#8221;. E aqui \u00e9 um dos grandes ber\u00e7os do <em>rap<\/em> nacional, talvez o maior, mas a gente ainda tem muito a pesquisar, os outros territ\u00f3rios, 26 estados mais o DF. Mas aqui, na Roosevelt j\u00e1 passou [de tudo] aqui: come\u00e7ando com Racionais, que eram esses mais novos que estavam com a gente. O [Mano] Brown, inclusive, fala isso no livro do TR, que \u00e9 o antigo DJ do MV Bill, ele escreveu um livro, chama <em>Acorda Hip Hop<\/em>, onde numa entrevista o Brown fala isso: &#8220;Subimos eu, o MC Who, o J.R. Brown e a gente foi pra Roosevelt e ocupou a Roosevelt com o <em>rap.<\/em>&#8220;<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> E continua essa cultura viva aqui?<br \/> <strong>MC Who:<\/strong> Continua, e \u00e9 muito legal. Na \u00e9poca, a Roosevelt tinha dois andares. Depois, ela sofreu uma reforma forte, e hoje ela \u00e9 essa pra\u00e7a mais plana aqui. L\u00e1 na outra ponta da Roosevelt, que d\u00e1 pra ver o caminho pra Radial Leste, ali acontece o Slam Resist\u00eancia. O <em>slam<\/em>, na nossa percep\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o inspirada pela cultura<em> hip hop<\/em> tamb\u00e9m. E tamb\u00e9m tem a batalha de rima aqui, j\u00e1 foi, j\u00e1 voltou, mas ela est\u00e1 sempre aqui, dialogando com o <em>skate<\/em>, que tamb\u00e9m \u00e9 algo que complementa a semi\u00f3tica da nossa ocupa\u00e7\u00e3o da rua. \u00c9 importante que a gente n\u00e3o esque\u00e7a a Roosevelt dentro das nossas narrativas, porque trazendo a Roosevelt, trazendo o territ\u00f3rio, trazendo o cen\u00e1rio, a gente traz os personagens.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes eu brinco que o Sabotage est\u00e1 dando bronca em todo mundo, dizendo: &#8220;Eu n\u00e3o quero ficar sentado sozinho aqui nesse Abu Simbel [templo eg\u00edpcio da antiguidade], nesse pante\u00e3o. Cad\u00ea o J.R. Brown? Cad\u00ea o Uzi? Cad\u00ea todo mundo? Porque passa por essa coisa da valida\u00e7\u00e3o, do <em>establishment<\/em>. Quando a m\u00eddia, ou algu\u00e9m famoso, no caso do [sambista] Cartola, no caso do Donga, eles precisaram ser validados pelo jornalista branco, ou burgu\u00eas, ou culturalmente mais avan\u00e7ado. Esses precisam estar sendo trazidos, porque eles foram muito importantes. O J.R. dizia: &#8220;Toda pra\u00e7a e toda rua \u00e9<em> hip hop<\/em>&#8220;. E a gente perdeu ele, um cara que faz muita falta. O DJ Uzi faz muita falta. E o Marcos Tadeu, que tamb\u00e9m trocou muita letra, que \u00e9 um dos grandes, talvez o maior letrista da nossa gera\u00e7\u00e3o e \u00e9 esquecido. \u00c9 importante a gente relembrar isso.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> MC Who, conta pra gente um pouco como foi sua chegada ao <em>hip hop<\/em>. De que parte aqui de S\u00e3o Paulo voc\u00ea \u00e9?<br \/> <strong>MC Who:<\/strong> Eu nasci e fui criado no Real Parque, perto da Ponte do Morumbi, na \u00e9poca era um bairro oper\u00e1rio. Eu passei por outros bairros, Aeroporto, depois eu fui pra Parque Ararib\u00e1, Vila das Belezas e fomos criados ali na periferia de S\u00e3o Paulo, zona sul e extremo sul sempre. Eu tenho v\u00e1rios irm\u00e3os mais velhos e tenho meus tios, que tinham muito disco, at\u00e9 hoje eu tenho esse h\u00e1bito de manipular os discos. Desde pequeno eu tive disco em casa, tive disco desde Luiz Gonzaga, ou Saraiva, esses instrumentais que o meu pai ouvia, at\u00e9 as coisas mais contempor\u00e2neas pra \u00e9poca dos meus irm\u00e3os, como Caetano Veloso, Gal Costa, todos esses e v\u00e1rios outros que foram chegando, mais alternativos.<\/p>\n<p>A\u00ed eu entendi que a m\u00fasica era muito al\u00e9m do que aparecia na televis\u00e3o ou nos jornais ou nas revistas. Tinha\u00a0coisas alternativas ali. Assim que eu tomei contato. Depois chega a <em>black music<\/em> tanto no col\u00e9gio quanto dentro de casa tamb\u00e9m. Eu fui entender que o Tim Maia era <em>black music<\/em> e tal. Entender tudo aquilo era tamb\u00e9m da nossa identidade. Apesar de a gente ser mesti\u00e7o, a gente queria se identificar com a quest\u00e3o cultural e a m\u00fasica me fez entender que eu era um homem preto. Muita gente desestimulava isso.\u00a0\u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o preto\u201d. Hoje a gente sabe que \u00e9 o tal do colorismo, mas na \u00e9poca&#8230; N\u00e3o, tudo que eu fa\u00e7o \u00e9 coisa de preto. Quando no come\u00e7o dos anos 80 come\u00e7am a chegar as primeiras refer\u00eancias da cultura <em>hip hop<\/em>, cultura de rua, que estava acontecendo nos Estados Unidos. Tem, por exemplo, desde um v\u00eddeo da banda [norte-americana] Chic, <em>Hangin&#8217; Out<\/em>, que mostra o garoto quebrando no<em> breaking<\/em>, no <em>break<\/em>, no <em>pop<\/em> e o<em> boombox<\/em> ali. Tinha um cen\u00e1rio de falar: &#8220;Quero fazer isso&#8221;.<\/p>\n<p>Como todo adolescente quer ter isso, quer ter essas identidades. Depois tem um monte de artistas <em>pop<\/em> que foram usando elementos da cultura de rua como <em>break<\/em>, como Lionel Richie. Mas eu penso e proponho que o Beat Street, que foi lan\u00e7ado no Brasil como Loucuras do Ritmo, ele seja o grande, apesar de ser uma alegoria bobinha, num caso de romance e tal, mas ele j\u00e1 mostra ali como que funcionava a cultura pra n\u00f3s. A gente discutindo hoje sabe que, para os Estados Unidos, o Beat Street n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante ou quase nenhum importante, a n\u00e3o ser uma coisa aleg\u00f3rica mesmo, do cinema, da ind\u00fastria. Eles valorizam o Myron Wad Style, de 1983, que s\u00f3 foi chegar aqui ao Brasil pra gente entender e assistir a ele na d\u00e9cada de 1990. Mas ele foi lan\u00e7ado no Brasil tamb\u00e9m, mas passou num circuito acad\u00eamico, a gente foi descobrir isso depois. O contato com a cultura foi isso: uma identidade imediata.<\/p>\n<p>Existia um desafio muito grande de dizer: &#8220;\u00d3, eles conseguem cantar falado assim porque \u00e9 ingl\u00eas. Ingl\u00eas tem uma s\u00e9rie de contra\u00e7\u00f5es e tal&#8221;. Foi o primeiro desafio para um garoto de 12 anos. Aos poucos, a gente foi conhecendo poesia. E a gente come\u00e7ou a cantar poesia. Seja ela Fernando Pessoa ou Manuel Bandeira. Isso \u00e9 uma coisa singular minha, cada um teve o seu processo.\u00a0Mas eu e o C\u00e1ssio, o DJ Uzi, do Credo, a gente pegou esse caminho. N\u00f3s pegamos as m\u00e9tricas das poesias e entendemos que a gente tinha que escrever daquela forma para que a gente tivesse a levada, que hoje chama <em>flow<\/em>. E \u00e9 l\u00f3gico que isso vai se sofisticando, vai ficando cada vez mais sofisticado. Mas era essa necessidade de se expressar, que a gente lia e queria dizer o que estava entendendo daquilo. A hist\u00f3ria conta o resto, mas eu comecei assim.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Queria falar um pouco tamb\u00e9m sobre O Credo, que era sua banda no in\u00edcio. Queria saber um pouco sobre o que voc\u00eas trouxeram para o disco Hip Hop Cultura de Rua.<br \/> <strong>MC Who:<\/strong> O Credo na \u00e9poca tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o de provocar isso, que as pessoas pensassem nelas, que trouxesse uma reflex\u00e3o da sua exist\u00eancia. A gente ficava provocando porque tinha a quest\u00e3o da religi\u00e3o, tinha a quest\u00e3o da sua origem, ent\u00e3o n\u00f3s fizemos essas provoca\u00e7\u00f5es, tanto te\u00f3ricas dentro das letras, que n\u00f3s, pela forma\u00e7\u00e3o familiar, minha m\u00e3e influenciou, meu pai influenciou muito a mim ler. O Cassius Franco, o DJ Uzi,\u00a0tamb\u00e9m lia muito e pesquisava muito sobre m\u00fasica, quanto \u00e0 origem dele com o pai, que era DJ tamb\u00e9m de<em> jazz<\/em>. As letras tinham essa pegada pra provocar mesmo. E a\u00ed tamb\u00e9m a quest\u00e3o est\u00e9tica de que a gente era influenciado muito, tanto pelo<em> jazz<\/em>, quanto \u00e0\u00a0m\u00fasica instrumental brasileira, e por essa quest\u00e3o da transgress\u00e3o, do Malcolm X [l\u00edder e pensador negro norte-americano]. A gente ouvia muito Public Enemy na \u00e9poca.<\/p>\n<p>O [grupo de <em>rap<\/em> norte-americano] Public Enemy provocou a gente tamb\u00e9m a dialogar com essas influ\u00eancias. A gente foi buscar os guitarristas de metal, que nem eles gravaram com Slayer, Tantrax [bandas de <em>heavy metal<\/em>] e tal. E a gente foi atr\u00e1s do H\u00e9lcio Aguirra, finado H\u00e9lcio, saudoso, que era do Golpe de Estado, a maior banda metal na \u00e9poca, muito amigo do nosso produtor e m\u00fasico Akira S, que tamb\u00e9m j\u00e1 vinha de outro setor, dos Garotas que Erraram, que era uma m\u00fasica eletr\u00f4nica alternativa da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Teve uma ideia do Gilson Fernandes, que era o produtor do disco, e falou que o Boccato, o instrumentista Boccato, tinha feito as demos com a gente, mas que o disco tinha que ter o Raul de Souza, que era internacionalmente conhecido. O grande Raul de Souza vem de maneira muito generosa e participa das faixas do Credo, o que muita pouca gente sabe. O maior trombonista do mundo na \u00e9poca, pela<em> Down Beat<\/em>, que era uma revista especializada, o Raul de Souza gravou com o Credo, que eram os garotos da periferia.<\/p>\n<p>Aproveitando isso, as nossas faixas v\u00e3o ser remasterizadas porque vai ser lan\u00e7ada uma reprensagem do <em>Cultura de Rua<\/em> atrav\u00e9s da Vinil Brasil, onde o Michel fez um trabalho muito especial de recupera\u00e7\u00e3o dessa mixagem, dessa qualidade t\u00e9cnica que vai valorizar esses instrumentistas que O Credo teve a honra de receber em suas faixas.<\/p>\n<h2>Assista na <strong>TV Brasil<\/strong> ao <em>Caminhos da Reportagem<\/em> sobre <em>hip hop<\/em>:<\/h2>\n<div class=\"embed-container\"><iframe allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xeSBpMy5oII\"><\/iframe><\/div>\n<p id=\"infocoweb_fonte\" class=\"infocoweb_fonte\">Fonte: <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-11\/africa-e-mae-do-hip-hop-diz-autor-do-1-disco-do-movimento-no-brasil#59e64df0-3ef3-40fd-9ed4-967def5ec195\" rel=\"noopener\">EBC GERAL<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando recebeu o convite para gravar um disco, MC Who pensou que estava diante da realiza\u00e7\u00e3o de um sonho. 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