{"id":75953,"date":"2024-02-24T18:04:51","date_gmt":"2024-02-24T21:04:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.fatosefotosnews.com.br\/exposicao-de-jeff-alan-reforca-representatividade-do-povo-preto\/"},"modified":"2024-02-24T18:04:51","modified_gmt":"2024-02-24T21:04:51","slug":"exposicao-de-jeff-alan-reforca-representatividade-do-povo-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.fatosefotosnews.com.br\/?p=75953","title":{"rendered":"Exposi\u00e7\u00e3o de Jeff Alan refor\u00e7a representatividade do povo preto"},"content":{"rendered":"<p>A comunidade Barro, zona oeste de Recife, Pernambuco, \u00e9 o ber\u00e7o de tudo. Ali, Jefferson Alan Mendes Ferreira da Silva nasceu, cresceu e, como promete, vai ficar para sempre. L\u00e1 tamb\u00e9m, aos quatro anos, j\u00e1 fazia os primeiros desenhos. Pouco tempo depois, a inspira\u00e7\u00e3o deixou de ser os desenhos vistos na televis\u00e3o que reproduziam, por exemplo, o <em>Pok\u00e9mon<\/em>, passando a ser os amigos, pessoas das quebradas e das comunidades retratados nas suas telas.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1582771&#038;o=node\" style=\"width:1px;height:1px\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1582771&#038;o=node\" style=\"width:1px;height:1px\"><\/p>\n<p>Assim surgiu o artista pl\u00e1stico Jeff Alan, autor das 40 obras que comp\u00f5em a mostra <em>Comigo Ningu\u00e9m Pode &#8211; A Pintura de Jeff Alan<\/em>, no Centro Cultural da Caixa, no Passeio, regi\u00e3o central do Rio de Janeiro, com entrada gratuita. Aberta de ter\u00e7a a s\u00e1bado, das 10h \u00e0s 20h, e aos domingos e feriados, das 11h \u00e0s 18h. A exposi\u00e7\u00e3o conta com legendas em braile e <em>QR code<\/em> com a audiodescri\u00e7\u00e3o das pe\u00e7as.<\/p>\n<p>Antes de chegar ao Rio, a mostra esteve por pouco mais de dois meses no Centro Cultural da Caixa, no Recife, onde foi vista por 85 mil pessoas. A primeira apresenta\u00e7\u00e3o dos trabalhos foi na Casa Esta\u00e7\u00e3o da Luz, em Olinda, centro cultural do cantor e compositor Alceu Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>A m\u00e3e, a manicure Lucilene, de 53 anos, foi a grande incentivadora e ainda hoje Jeff pede opini\u00f5es dela quando est\u00e1 criando uma obra. \u201cMinha m\u00e3e sempre foi uma inspira\u00e7\u00e3o para mim, n\u00e3o s\u00f3 art\u00edstica, mas de ser humano mesmo\u201d, revela. No in\u00edcio os trabalhos eram em preto e branco. N\u00e3o era apenas uma tend\u00eancia. Jeff n\u00e3o sabia, mas era dalt\u00f4nico.<\/p>\n<p>A descoberta foi aos 20 e poucos anos, quando, segundo ele, \u201cpagou alguns micos\u201d. Na faculdade tinha feito um quadro com fundo rosa, que descreveu como vermelho. Os colegas apontaram que estava trocando as cores. Fez alguns testes e comprovou que tinha daltonismo.<\/p>\n<p>Embora tenha come\u00e7ado com o preto e branco, j\u00e1 estava trabalhando com cores antes de saber que era dalt\u00f4nico. Jeff conta que costuma confundir o azul com verde, o verde com marrom ou cinza, laranja claro e rosa com vermelho. As trocas dependem das cores pr\u00f3ximas. Nada disso \u00e9 problema para o pintor. \u201cA descoberta foi pagando alguns micos e algumas cores eu j\u00e1 tinha decorado. Tenho a minha paleta de trabalho reduzida, ent\u00e3o, para mim foi tranquilo\u201d, destaca.<\/p>\n<p>As cores dos fundos das obras determinam a mensagem que o artista quer passar. O azul \u00e9 o sonho, o vermelho a coragem e o amarelo o ouro, a conquista de um lugar. O nome da exposi\u00e7\u00e3o que tem entrada gr\u00e1tis \u00e9 uma refer\u00eancia tamb\u00e9m \u00e0 planta <em>Comigo ningu\u00e9m pode<\/em>, que o artista via em muitas ruas do Barro.<\/p>\n<p>Em entrevista para a <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>, Jeff Alan comentou as caracter\u00edsticas do seu trabalho, a vontade de destacar pessoas da periferia e refor\u00e7ar o viver do povo preto.<\/p>\n<p>\u201cEu quero elevar a auto estima do meu povo, quero ver a juventude vivendo os seus sonhos. Esse trabalho vem aqui para denunciar, reafirmar, reivindicar e para dizer que este espa\u00e7o aqui \u00e9 nosso. A gente n\u00e3o quer s\u00f3 ocupar, a gente quer estar. Muita gente fala em ocupar. Ocupar para mim \u00e9 uma coisa tempor\u00e1ria. A gente quer fazer parte do corpo. A gente quer gerir. A gente tamb\u00e9m quer ditar as regras do jogo\u201d.<\/p>\n<h2>Origem<\/h2>\n<p>\u201cA exposi\u00e7\u00e3o <em>Comigo Ningu\u00e9m Pode<\/em> surgiu no bairro do Barro, zona oeste do Recife, periferia na esquina do Bar do Beco, do meu tio Alb\u00e9rico Mendes da Silva, que faleceu h\u00e1 dois anos. O t\u00edtulo \u00e9 uma forma de trazer o meu tio, uma homenagem e tamb\u00e9m uma reafirma\u00e7\u00e3o dos fazeres do povo preto. Saber que com a gente ningu\u00e9m pode. A exposi\u00e7\u00e3o fala sobre coragem, muita luta, sobre sonhos, sobre o caminho da escola, sobre o caminho vermelho, esse desejo de descobrir o caminho azul. Costumo dizer que o vermelho \u00e9 a cor de coragem e o azul de sonhos\u201d, enfatiza o artista.<\/p>\n<h2>Comigo Ningu\u00e9m Pode<\/h2>\n<p>\u201cEm todas as ruas do meu bairro vai ter uma casa que tem [a planta] <em>comigo ningu\u00e9m pode<\/em> e l\u00e1 em Olinda fizemos instala\u00e7\u00f5es com a planta natural, buscamos solu\u00e7\u00f5es que a gente encontra na periferia. Usar um balde de tinta, uma lata de manteiga para trazer o que de fato a gente encontra. Eu tenho um autorretrato, acho que de 2020, que tem uma <em>Comigo Ningu\u00e9m Pode<\/em> ao meu lado e tamb\u00e9m tenho uma foto minha aos seis anos que tem uma <em>Comigo Ningu\u00e9m Pode<\/em> atr\u00e1s. Eu n\u00e3o lembrava e encontrei a foto depois que fiz a pintura\u201d, recorda.<\/p>\n<h2>Desde cedo<\/h2>\n<p>Jeff Alan prossegue: \u201ceu pinto desde crian\u00e7a. Lembro que na escola, quando tinha trabalho em grupo, pediam para fazer a capa. Eu costumava fazer a capa. Eu gostava muito de estudar at\u00e9 a oitava s\u00e9rie, mas o que era chato no ensino fundamental e ensino m\u00e9dio \u00e9 que voc\u00ea \u00e9 obrigado a estudar aquilo. J\u00e1 na faculdade \u00e9 outra coisa. Estuda uma parada que voc\u00ea escolheu e eu gostava muito de matem\u00e1tica. O meu sobrinho Guilherme, de seis anos, faz o mesmo.<\/p>\n<h2>Trajet\u00f3ria<\/h2>\n<p>O pintor lembra que decalcava, usava muito papel carbono e foi crescendo fazendo muito desenho que assistia na TV. \u201cCavaleiros do zod\u00edaco, <em>Dragon Ball Z<\/em>, <em>Pok\u00e9mon<\/em>. Folheando minhas pastas antigas de 20 anos atr\u00e1s encontrei retratos de pessoas que n\u00e3o sabia quem era. Acho que foram estudos que contribu\u00edram para chegar a este resultado. Em 2008, comecei a pichar, depois grafitar e a fazer interven\u00e7\u00f5es urbanas. Comecei a conhecer os movimentos de arte urbana e de 2008 at\u00e9 2014 consegui desenvolver o meu estilo que era abstrato. Uns tra\u00e7os org\u00e2nicos e fiquei conhecido por este trabalho que me criou uma zona de conforto. De 2014 para c\u00e1 j\u00e1 estava na faculdade de Arquitetura e passei a ter muita rela\u00e7\u00e3o com escrit\u00f3rio de arquitetura de design de interiores. Esse meu trabalho abstrato \u00e9 muito comercial. Eu sentia que este trabalho n\u00e3o ia me levar ao museu, a uma galeria, a uma exposi\u00e7\u00e3o como essa\u201d, diz.<\/p>\n<h2>Pandemia<\/h2>\n<p>Ele conta, a seguir, que quando a pandemia de covid-19 chegou ao Brasil, \u201ceu tive que desacelerar e passei a olhar mais para dentro. Passei a me envolver mais com a minha fam\u00edlia, me conectei mais com meus ancestrais. A\u00ed eu fiz <em>O que vai ser de mim<\/em>? Em um quarto min\u00fasculo, eu fico muito s\u00f3 no quarto quando n\u00e3o estou pintando, nasceu a s\u00e9rie <em>Olhar para Dentro<\/em>. A primeira obra foi um jovem com uma garrafa de cola na m\u00e3o. Essa obra nasceu a partir de um retrato que eu tinha no meu celular. Lembro de outra obra que foi de um retrato de uma av\u00f3 com a netinha na comunidade Nossa Senhora do Pilar, no Recife antigo. Aquela foto eu fiz para o meu trabalho de conclus\u00e3o de curso e fui fotografar cena e tem aquele caminhar da av\u00f3 com a netinha. A foto &#8211; acho que foi em 2016 e em 2020 &#8211; eu fiz essa obra. Uma obra que eu fiz, eu estava em uma janela de \u00f4nibus e vi um rapaz com um fardamento azul e ele estava folheando alguma coisa. Lembro bem desse dia. Foi no bairro de Afogados, defronte \u00e0 igreja do Largo da Paz. O \u00f4nibus parou exatamente naquele local. Lembro tamb\u00e9m de um poema de Mir\u00f3 da Muribeca [poeta urbano do Recife que morreu em 2022] que diz que a janela de \u00f4nibus \u00e9 danada para botar a gente para pensar, principalmente quando a viagem \u00e9 longa. \u00c9 muito inspirador. Naquele momento fiz uma foto r\u00e1pida. N\u00e3o pude conversar com ele porque estava dentro do \u00f4nibus, mas o que me chamou aten\u00e7\u00e3o foi o fato dele estar com fardamento [que remetia ao pai] e estava folheando uma coisa e que provavelmente se estivesse em ambiente de trabalho seria chamado aten\u00e7\u00e3o e poderia perder o emprego por estar lendo, estudando, buscando um conhecimento. Aquele momento foi muito marcante para mim. Gostaria que aquela obra estivesse aqui, mas est\u00e1 muito longe [n\u00e3o revelou onde est\u00e1] porque foi vendida. \u00c9 uma obra muito importante. Um desenho em aquarela com l\u00e1pis de cor sobre o papel\u201d, acrescenta.<\/p>\n<h2>Hist\u00f3rias<\/h2>\n<p>O artista se diz \u201cum contador de hist\u00f3rias. N\u00e3o faria sentido algum eu chegar aqui, te receber e dizer que essa aqui \u00e9 Ivana [Pires]. \u00c9 uma pintura tinta acr\u00edlica sobre tela. Quem \u00e9 Ivana? Ivana \u00e9 uma jovem de Salvador. Modelo que est\u00e1 rodando o mundo com seu rosto estampado nas principais revistas de moda. Fazendo um grande trabalho, realizando seu sonho. O que foi que emocionou Ivana? Foi ver a foto dela na capa do cat\u00e1logo. Ela publicou isso e disse para m\u00e3e que era capa de um livro, que \u00e9 um cat\u00e1logo de uma exposi\u00e7\u00e3o. Acho que essa rea\u00e7\u00e3o da Ivana ap\u00f3s esse trabalho ser conclu\u00eddo \u00e9 porque ela entende que o trabalho foi feito por um artista preto, que tem viv\u00eancias parecidas com as dela. Um artista preto que vai dialogar com tantas outras meninas que querem estar nesses lugares que Ivana est\u00e1 alcan\u00e7ando.\u201d<\/p>\n<h2>Conhecer personagens<\/h2>\n<p>Sobre os seus trabalhos, ele diz: \u201cmuitas obras que est\u00e3o aqui s\u00e3o de pessoas que eu conheci e me conectei, como estou me conectando com voc\u00ea [rep\u00f3rter] e tive uma troca. Facilita o meu trabalho. Aqui tamb\u00e9m tem obras de pessoas que eu n\u00e3o conhe\u00e7o, refer\u00eancias de filmes, de alguma coisa que vi em uma rede social, de uma pessoa que cruzou o meu caminho de forma virtual, a\u00ed vou misturando. Mas muitas obras tamb\u00e9m s\u00e3o autorretratos. Ao passar o tempo est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil pintar pessoas que eu n\u00e3o conhe\u00e7o, por isso n\u00e3o aceito encomenda, porque n\u00e3o conseguiria apresentar uma obra sem conhecer a hist\u00f3ria daquela pessoa. Ao longo da exposi\u00e7\u00e3o h\u00e1 obras que consigo me debru\u00e7ar e passar horas e horas apresentando aquele trabalho, porque eu conhe\u00e7o aquela pessoa que est\u00e1 viva e em processo de mudan\u00e7as. Muitas obras est\u00e3o em andamento, mas o que define que uma obra est\u00e1 conclu\u00edda e se s\u00e3o pessoas reais? Hoje sou uma pessoa e amanh\u00e3 posso ser outra. Registrei o momento\u201d.<\/p>\n<h2>Recome\u00e7o<\/h2>\n<p>Jeff Alan explica que, \u201cao longo da exposi\u00e7\u00e3o, a gente vai ver que aparece um c\u00e9u estrelado, diferente da maioria das obras, aquele desejo de poder contemplar o c\u00e9u em paz, de ver as estrelas. Acho que, quando a gente olha, o c\u00e9u reacende a vontade de sonhar, quando falo muito de c\u00e9u eu lembro de muitas mem\u00f3rias da minha inf\u00e2ncia quando eu deitava no ch\u00e3o e ficava olhando o c\u00e9u, as nuvens e ficava brincando com aquilo e desenhando. Acredito que esse sonho azul \u00e9 o c\u00e9u de sonhos, \u00e9 o c\u00e9u do recome\u00e7o. Tem uma obra minha que se chama <em>Recome\u00e7ar<\/em>, que n\u00e3o est\u00e1 aqui, mas estava no Recife, ela fala sobre um jovem que est\u00e1 no Casem, que \u00e9 a casa de semiliberdade da Funase [Funda\u00e7\u00e3o de Atendimento Socioeducativo do Recife], que eu conheci durante uma atividade eu fui fazer l\u00e1. Esse jovem se encontra em dois lugares. No Casem e no museu. E a\u00ed nas visitas mediadas acontecem muitas provoca\u00e7\u00f5es e l\u00e1 [algu\u00e9m] perguntava. \u2018Quem foi conhecer a hist\u00f3ria desse jovem no Casem?\u2019. Ningu\u00e9m, mas voc\u00eas est\u00e3o vindo aqui ao museu. Ser\u00e1 que \u00e9 preciso colocar uma obra dentro de um museu para que voc\u00eas conhe\u00e7am esses jovens? Para que entendam que esses jovens existem, t\u00eam sonhos e queriam estar agora aqui conosco? Ent\u00e3o, esse azul dessa obra \u00e9 de recome\u00e7o\u201d.<\/p>\n<h2>Novidade<\/h2>\n<p>O artista explica que \u201ca obra de Ca\u00edque \u00e9 a grande novidade dessa exposi\u00e7\u00e3o no Centro Cultural da Caixa, no Rio. O retrato tem escrito coragem atr\u00e1s com uma parede vermelha manchada. Esse vermelho que eu falei ser de coragem muitas vezes \u00e9 um caminho de sangue. \u00c9 o caminho que a gente atravessa, seja no caminho para a escola, para o trabalho e at\u00e9 para o lazer. Como \u00e9 atravessar esse caminho sangrento e n\u00e3o perder a vontade de sonhar e viver de seus sonhos? \u00c9 muito desafiador a vida do jovem, n\u00e3o s\u00f3 do jovem, mas do povo perif\u00e9rico, do povo preto. Ent\u00e3o, vejo o Ca\u00edque atravessando esse caminho vermelho em busca do sonho dele de ser jogador de futebol, que \u00e9 o que ele quer agora. Ele j\u00e1 joga, mas que ele seja o que quiser e tenha liberdade de sonhar e ver os seus sonhos, como a gente est\u00e1 vendo aqui em outra obra onde est\u00e1 escrito em uma bolsa <em>Sonhos Vivos<\/em> e aparece com o fardamento [uniforme] azul da rede p\u00fablica do Recife. O que eu quero dizer com isso? Que o caminho da escola para mim foi de sonhos, de descobertas. Foi no caminho da escola que comecei a pichar, fazer grafites, foi onde comecei a me entender enquanto artista e qual o lugar quero ocupar dentro da cidade\u201d.<\/p>\n<h2>Invisibilidade<\/h2>\n<p>O pintor pernambucano pergunta: \u201cquem se preocupa com os sonhos da popula\u00e7\u00e3o de rua? Muitas das obras falam da vontade de sonhar, de viver os seus sonhos e em paz, n\u00e3o mais um caminho vermelho de sangue, mas de amor. Na inf\u00e2ncia me ensinaram que vermelho era amor. Eu cresci e fui vendo que vermelho \u00e9 a cor que interrompe muitos sonhos da nossa juventude. Que vermelho \u00e9 a cor dos nossos corpos estirados no ch\u00e3o. \u00c9 uma mancha na parede na casa de Douglas, de Ca\u00edque, da minha casa e de tantas outras que vivem nesse caos. A gente n\u00e3o quer mais falar nesse vermelho amor. Espero que, no pr\u00f3ximo encontro, a gente possa falar sobre conquistas, afeto. Aqui as obras n\u00e3o aparecem sorrindo. \u00c9 todo mundo muito atento, meio que penetra. Acho que isso vem muito do estranhamento de visitar ambientes de cultura e n\u00e3o me ver representado ao longo de todos esses anos. Hoje a coisa j\u00e1 est\u00e1 mudando. Pronto, aqui mesmo no Rio a gente tem o MAR [Museu de Arte do Rio], acredito que \u00e9 um museu que tem a cara do povo. Esse di\u00e1logo que trago aqui nesta exposi\u00e7\u00e3o j\u00e1 acontece no MAR e em outros equipamentos de cultura do Brasil todo. Demorou muito para que a gente tivesse este espa\u00e7o, mas a gente vai escrever uma outra hist\u00f3ria que n\u00e3o vai desrespeitar o que nossos ancestrais fizeram\u201d.<\/p>\n<h2>Reflexo da vida<\/h2>\n<p>\u201cTudo que acontece nesta exposi\u00e7\u00e3o, acontece nas ruas, ent\u00e3o, n\u00e3o far\u00e1 sentido algum se as pessoas que vierem aqui continuarem ignorando as pessoas nas cal\u00e7adas, no caminho da escola. Essas pessoas existem. S\u00e3o pessoas que t\u00eam sonhos e vontade de viver. Estou muito feliz de estar aqui e otimista com as rela\u00e7\u00f5es que a gente vai construir ao longo dessa exposi\u00e7\u00e3o. O espa\u00e7o est\u00e1 aberto para receber, principalmente, gente de quebrada, de favela, maloqueiro e que essas obras sejam vistas como espelho. N\u00e3o far\u00e1 sentido algum essa exposi\u00e7\u00e3o aqui para um p\u00fablico branco contemplar. N\u00e3o que seja um problema, mas antes de tudo \u00e9 importante que as pessoas se vejam e se identifiquem nestas obras. Que sejam espelhos\u201d observa.<\/p>\n<h2>P\u00fablico<\/h2>\n<p>Pensando na capital pernambucana, Jeff diz que \u201cl\u00e1 no Recife ganhei mais de cinco mil seguidores. Tem um depoimento de uma senhora de 56 anos. Ela falou: \u2018Essa \u00e9 a primeira vez que venho a um museu. Sempre achei que era lugar de patr\u00e3o\u2019. Ela \u00e9 trabalhadora dom\u00e9stica e escutava muita hist\u00f3ria dos patr\u00f5es indo viajar. Ela ganhou um convite. A gente buscou esse p\u00fablico que nunca tinha ido a um museu, porque, do contr\u00e1rio, fica sempre dentro da mesma bolha. A gente chamou pessoas que estavam atravessando a rua, comerciantes, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. Pessoas que s\u00e3o a cara da exposi\u00e7\u00e3o. Isso eleva muito a auto estima. Depois que foi l\u00e1, foi de novo e passou a entender que arte tamb\u00e9m \u00e9 para ela\u201d.<\/p>\n<h2>Caminhos<\/h2>\n<p>Ele enfatiza que h\u00e1 \u201ccaminhos vermelho, azul e amarelo. Tem composi\u00e7\u00e3o com amarelo. O que \u00e9 esse amarelo? Eu sou dalt\u00f4nico, ent\u00e3o a minha paleta \u00e9 muito reduzida. As cores se repetem muito e s\u00e3o cores que me apresentaram na inf\u00e2ncia. Uso muito o azul, que vem muito do fardamento [macac\u00e3o] que meu pai usava [ele era mec\u00e2nico da CBTU &#8211; Companhia Brasileira de Trens Urbanos]. A mem\u00f3ria que tenho do azul vem muito disso. O amarelo, nesses brincos que se repetem em muitas obras e mudam de tamanho, representa o ouro. Em algum momento eu disse que ia substituir esse amarelo por uma folha de ouro, deixei levar e meio que se criou identidade e eu mantive. O amarelo \u00e9 para representar o ouro que \u00e9 nosso, que foi roubado e a gente quer de volta. A gente quer portar ouro, prata, enfim, portar joias. Em algumas obras aparecem acess\u00f3rios, b\u00fazios\u201d.<\/p>\n<h2>Vermelho nos olhos<\/h2>\n<p>Ainda sobre cores, o artista afirma que \u201co vermelho nos olhos vem muito da express\u00e3o sangue nos olhos. Parte de muita indigna\u00e7\u00e3o que resultou nesta exposi\u00e7\u00e3o. Posso dizer que fiquei muito tempo com sangue nos olhos, por falta de visibilidade, falta de espa\u00e7o, por n\u00e3o me sentir representado. Isso tem muito de indigna\u00e7\u00e3o. Eu pinto muito quando estou triste, mas pinto muito mais quando estou feliz. Acho que essa necessidade de pintar em um momento de tristeza \u00e9 para colocar para fora o que eu tenho de melhor, para me sentir vivo, me sentir \u00fatil. Essas obras s\u00e3o resultado de muitas emo\u00e7\u00f5es, de muita revolta e tamb\u00e9m de muita alegria e de muitos sonhos\u201d, confessa.<\/p>\n<h2>Fam\u00edlia<\/h2>\n<p>Em outro ponto da entrevista, o artista diz que, \u201cpela primeira vez a minha fam\u00edlia viajou para o Rio de Janeiro [veio para a abertura da exposi\u00e7\u00e3o na quarta-feira (21)]. Minha m\u00e3e, dona Lucilene, na primeira vez que andou de avi\u00e3o foi para ver a exposi\u00e7\u00e3o do filho dela e com dinheiro de arte. Minhas irm\u00e3s est\u00e3o aqui, meu sobrinho com seis anos de idade fez a primeira viagem de avi\u00e3o. Eu fiz quando j\u00e1 estava com mais de 20 anos. Poder proporcionar isso para minha fam\u00edlia, vivendo do meu sonho, \u00e9 algo que eu sempre quis. Desde crian\u00e7a quis viver de arte. At\u00e9 os 15 anos ficava dividido entre futebol e artes visuais, mas nunca deixei de pintar\u201d.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-right\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=373482:medio_4colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">             <img data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/TnQJkoBZ8tXa55IBuTF0b28eW14=\/365x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/02\/24\/24022024-outlook-fpajyfb2.jpg?itok=PNndX-43\" alt=\"Rio de Janeiro 24\/02\/2024 Exposi\u00e7\u00e3o do artista Jeff Alan.  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N\u00e3o s\u00f3 uma escola de arte, mas uma escola para potencializar sonhos. Venho juntando recursos para realizar e viver esse sonho. [Vamos perguntar] Qual \u00e9 teu sonho? \u2018Ser jogador de futebol\u2019. Como podemos ajudar a concretizar isso? Bora fazer v\u00eddeos teus jogando. Se quer ser costureira bora fazer parcerias com grandes marcas. Isso que estou vivendo h\u00e1 muitos anos \u00e9 muito gostoso. \u00c9 muito prazeroso viver dos sonhos. \u00c9 muito bom\u201d.<\/p>\n<p id=\"infocoweb_fonte\" class=\"infocoweb_fonte\">Fonte: <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2024-02\/exposicao-de-jeff-alan-reforca-representatividade-do-povo-preto#fa483c04-db8b-41f0-bf6e-5b58ff9d18ae\" rel=\"noopener\">EBC GERAL<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A comunidade Barro, zona oeste de Recife, Pernambuco, \u00e9 o ber\u00e7o de tudo. Ali, Jefferson Alan Mendes Ferreira da Silva nasceu, cresceu e, como promete, vai ficar para sempre. L\u00e1 tamb\u00e9m, aos quatro anos, j\u00e1 fazia os primeiros desenhos. 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