Em websérie, atriz trata os homens como eles tratam as mulheres

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Arquivo pessoal

Claudia Campolina recebeu ataques de haters nas redes sociais por “inverter os papéis” e usar o discurso machista contra os próprios homens

De forma leve e bem-humorada, a atriz Claudia Campolina faz sucesso nas redes sociais com o chamado ‘Mundo Invertido’, uma websérie que escancara os comportamentos machistas, mas, reproduzidos do ponto de vista de uma mulher — como se os papéis fossem, como o próprio nome já diz, realmente invertidos e, desta vez, os homens fossem as vítimas. Imaginando um cenário distópico, no qual o mundo é regido pelo ‘matriarcalismo’, a atriz usa falas naturalizadas pelos homens para denunciar o machismo: “Senta que nem mocinho”, “Vira fêmea”, “Você não acha que tá muito velho pra usar esse tipo de roupa, não?”.

Nos vídeos, Claudia trata os homens como eles tratam as mulheres. Mas, recententemente, a atriz e comediante recebeu uma série de ataques em uma publicação vinda de haters, que, justamente por não entenderem a ironia ou por se sentirem ofendidos pelo conteúdo, fizeram comentários misóginos contra ela. 

“Por que é melhor pegar novinho do que pegar homem de idade?”, começa a cidadã de bem interpretada por Claudia Campolina. “Trauma, gente. O homem quando começa a ficar meio tiozão, com 30, 32 anos, além de tá com problema ali na pingola, ele tá cheio de problema psicológico, tá muito amargurado, carente. Se fosse homem bom, já tinha arrumado uma mulher pra casar com ele. E fora isso, gente, eles têm muita malícia. Então, eles percebem os nossos joguetes com muito mais facilidade. Não indico pra ninguém!”.


A carapuça serviu

“Já tem mais ou menos uns dois anos que eu faço o ‘Mundo Invertido’. Então, é muito comum receber um ataque ou outro vindo, principalmente, de homens. Mulheres normalmente só discordam, não costumam atacar violentamente igual homens não. Então, eu já estava meio que preparada. Mas o que aconteceu dessa vez é que foi uma coisa massiva”, conta a atriz em entrevista exclusiva ao iG Delas . E os ataques não vieram apenas de perfis falsos, de acordo com ela.

“O que eu sinto é que as pessoas estão falando muito mais sobre elas do que sobre mim. E é um vídeo em que eu falo da potência masculina, calvície e idade, e essa é justamente uma das coisas mais fortes no machismo. A mulher não pode envelhecer. Quando ela passa dos 30 anos, é jogada para o escanteio. Então, quer dizer, eles têm um problema com isso e projetam nas mulheres a frustração que eles mesmos têm de envelhecer. E aí, nos comentários, muitos homens escreveram ‘Falou a tiazinha’ ou ‘É por isso que homem também prefere pegar novinha’. Ou seja, confirmaram o que eu estava falando. Eles não suportaram serem tratados como eles tratam as mulheres”, completa.

A advogada Luciana Barretto, sócia do escritório LSB Advogados, lembra que a Lei nº13.642/2018 atribui à Polícia Federal o poder de investigar crimes de ódio às mulheres praticados pela internet. “Mas isso não significa que no Brasil a gente tenha uma lei que criminaliza a misogonia. Na verdade, a gente tem a injúria e a difamação na internet. As pessoas ainda acreditam que a internet é uma terra sem lei, que o que está escrito ali está no anonimato e isso não é verdade. Tudo que é escrito atraves da internet, a polícia pode sim investigar, por meio do IP [Protocolo de Internet], encontrar o agressor e penalizá-lo”. 

No país, ainda existem poucas delegacias cibernéticas, e elas estão localizadas, principalmente, nas capitais. Mas a vítima mora em uma cidade que não tem uma delegacia cibernética pode procurar por uma Delegacia da Mulher ou mesmo a delegacia comum e registrar um Boletim de Ocorrência.

A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Claudia Campolina estreou na televisão na novela Insensato Coração, seguida por Guerra dos Sexos. Mas foi na série Politicamente Incorreto, ao lado de Danilo Gentili, que ela se destacou. A ideia de criar o Mundo Invertido veio um pouco depois. “Na primeira entrevista que eu fiz sobre o Mundo Invertido, eu contei que eu tive a ideia de criá-lo quando estava sentada no sofá durante a pandemia, e depois de um tempo, lembrei que na verdade não”.

“Em 2015, mais ou menos, eu fui almoçar em um desses bares de São Paulo com o meu namorado e fiquei olhando aquele ambiente, normalmente muito masculino… Nas mesas de bar, a gente sabe que rola muito comentário machista, mesmo que em tom de piada, né? Então, eu fiquei imaginando um filme: ‘E se nesse bar as mulheres reproduzissem comportamentos de homens machistas?’. Eu tive a ideia, mas acabei não desenvolvendo. E aí veio a pandemia e eu comecei a produzir vídeos para as redes sociais”.

Num primeiro momento, a ideia era inverter as frases. “Então, o que eu pensei foi: ‘Vou pegar frases corriqueiras, que a gente ouve desde que a gente nasce, e vou inverter, porque eu acho que quando a gente inverte, a gente tem uma ideia do quanto que é absurdo. Quando você põe na boca de uma mulher, a gente fala ‘Nossa, que estranho!”, diz a atriz.

E deu certo, as pessoas começaram a pedir mais. E Claudia Campolina passou a usar algumas situações cotidianas, como festas, entrevistas de emprego e maternidade, como pano de fundo para falar sobre o machismo.

Furando a bolha

A inspiração para os vídeos, segundo a artista, vem de sua própria experiência como mulher. Mas tudo pode servir como matéria-prima para criar os conteúdos: depoimentos de seguidoras, reportagens, publicações nas redes sociais… e sempre usando o humor.

“Eu acho que o humor tem uma coisa… parece que você está assistindo aquilo para rir, para entreter, e no final das contas, você também está refletindo sobre o assunto. E hoje, quando a gente fala a palavra ‘feminismo’, infelizmente ela vem carregada de uma série de preconceitos, de ideias deturpadas sobre o que ela significa. Eu não queria ter que ficar o tempo inteiro fazendo uma palestra, um discurso. Se eu falo sobre isso de maneira mais séria, talvez alcance pessoas que já estão dispostas a falarem sobre isso. Mas se eu inverter, falar do machismo de maneira bem-humorada, brincar com as situações, posso atingir quem costumava pensar ‘Esse papo é chato, não quero nem saber'”.

“O que eu acho mais louco na personagem, e eu busquei bastante inspiração no mundo real, é que ela é uma vilã e ela não liga, ela tem orgulho. E o que a gente encontra no mundo hoje, infelizmente, em pleno 2023, são homens machistas e orgulhosos de serem machistas. Eu falo que ela é uma ‘femista’, que seria o paralelo do machista, ela é ‘anti-masculinista’ e não tem o menor problema de falar isso abertamente nas redes sociais”, pontua Claudia.

Poder ajudar outras mulheres

O papel passou a ajudar outras mulheres, homens e a si mesma a identificar comportamentos machistas. “Me dá um quentinho no coração saber que meu trabalho está chegando para pessoas que precisam. O machismo é tão normalizado no nosso dia a dia que a gente só percebe o que está muito escancarado e grosseiro na nossa frente. As outras coisinhas, os detalhes passam batido. E aí, quando você inverte, caí a ficha”, avalia a artista.

Mas usar do humor para tocar em temas sensíveis nem sempre é fácil… No primeiro semestre de 2022, o Brasil bateu recorde de feminicídios, registrando cerca de 700 casos no período, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Só em 2021, o número chegou a 1.341. Naquele mesmo ano, mais de 66 mil mulheres foram vítimas de estupro.

“A minha personagem é o homem invertido, eu sou a abusadora. Então, tocar nesses temas sensíveis é sempre muito difícil. A gente ouve muito ‘Ah, mas com essa roupa, ela pediu para ser abusada’. Eu posso falar ‘Com esse shortinho marcando as coxas, ele pediu para ser abusado’. Nessa frase muito corriqueira eu consigo inverter rápido. Mas quando eu vou para uma situação específica de abuso, eu tenho que ficar dando muitas voltas para poder tocar nesse tema de forma cômica, sem desrespeitar ninguém e fazendo a mensagem chegar”.

Além disso, a vilã é inspirada em um homem machista e por isso… “É um homem heteronormativo, é binário, porque o machismo é binário, é focado no sexo biológico. E eu, como atriz, entendo a importância de a gente falar de diversidade e inclusão. Mas eu não consigo, no meu discurso, incluir todo mundo que eu gostaria. Você vai ver que tudo que eu falo, eu coloco ao redor da ‘pingola’ e da ‘cherolaine’, que são os termos que eu uso para falar dos órgãos genitais, porque o patriarcado é falocêntrico. É muito difícil incluir outros corpos no meu discurso. Um corpo que não é o corpo padrão é excluído, mostrando que o machista não consegue nem compreender uma dimensão corporal que não seja binária. Então ele acaba atingindo pessoas trans também”, completa Claudia.

Desejo de incluir outros corpos

“Tem muitas coisas que eu gostaria de fazer com o Mundo Invertido”, revela a atriz ao iG Delas . “Eu já pensei em tentar fazer um podcast para a gente discutir esses temas de outra maneira — óbvio, sempre vindo pela chave do humor, mas falando de coisa séria. Pensei em convidar pessoas para falar sobre isso, em escrever uma obra sobre o Mundo Invertido, fazer uma série. Por exemplo, se eu fizer um podcast, eu posso chamar uma pessoa trans para falar sobre como o machismo é cisgênero, heteronormativo, binário, como ele ignora outros corpos, ou então, como ele é pior para a mulher preta”.

Fonte: IG Mulher

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