Evento oficial ignora tradições locais e reduz a Praia do Forte a palco turístico comecial, deixando de valorizar quem realmente construiu a identidade cultural do destino
Foto: Arquivo/fatosefotosnews
O lançamento oficial da temporada de verão de Mata de São João, realizado na Praia do Forte, reforçou uma concepção limitada e empobrecida do que o destino realmente representa. Com foco em DJs, convidados exclusivos, influenciadores, gastronomia e clima pé-na-areia, o evento apresentou a vila como uma vitrine sofisticada para turistas. Mas deixou passar o mais importante: a alma cultural e humana que faz a Praia do Forte ser o que é.
Praia do Forte não é apenas um lugar para comer bem, beber e tomar sol. É um território de histórias profundas, tradições comunitárias e manifestações culturais que sobrevivem há gerações. É terra de samba de roda, de capoeira praticada ao som do berimbau no final da tarde, de pescadores e marisqueiras que aprenderam com seus antepassados o uso do mar e da maré. Nada disso apareceu no cardápio do evento.

Roda de Samba dos jovens da comunidade precisa de reconhecimento e apoio
O verão foi lançado sem a presença de uma roda de samba genuína, sem grupos de capoeira, sem apresentação de cantadores locais. Também ficaram de fora atividades esportivas típicas do litoral, como surf, futvôlei, canoagem ou corridas de praia — práticas vivas, presentes, que fazem parte da rotina de moradores e turistas. Ao excluir essas expressões, perde-se a oportunidade de apresentar um destino que não é apenas bonito, mas culturalmente vibrante.
Há uma contradição evidente entre o discurso e a prática. Enquanto a gestão municipal reforça que Praia do Forte é “a principal vitrine turística do Litoral Norte”, o evento que inaugura a temporada não dá protagonismo àquilo que diferencia essa região de qualquer outra praia brasileira: seus nativos, sua história e suas práticas culturais.

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Basta uma caminhada pela vila para entender isso. Atrás do atendimento no bar, restaurante, pousada ou loja, há quase sempre um morador que carrega consigo uma narrativa local rica: histórias de infância na maré, relatos sobre a antiga vila de pescadores, lembranças das primeiras pousadas e da transformação que o turismo trouxe. São pessoas que, com seu trabalho e sua memória, sustentam a experiência do visitante muito mais do que qualquer programação sofisticada.
Ao reduzir a Praia do Forte a um cenário instagramável, o evento apaga o que o torna único. A cultura não é acessório. É essência. É a roda de samba espontânea, é o toque da capoeira, é o surfista que cruza a vila de prancha debaixo do braço, é o futvôlei ao pôr do sol, é o sotaque, a música, a comida e a presença viva dos que nasceram ali.
Se a intenção é promover a Praia do Forte como um destino completo, sustentável e diferenciado, é necessário olhar para além do marketing de verão. É preciso reconhecer, valorizar e incorporar as manifestações que nasceram com o povo da região e continuam vivas, apesar das tentativas de sofisticar demais a narrativa turística.
A Praia do Forte é mais que palco. É protagonista. E a cultura local precisa voltar ao centro dessa história.

