PSD vê o bolsonarismo sangrar e entra em campo para disputar a liderança da direita

Coluna Política Política

Ao lançar antecipadamente a chapa Ronaldo Caiado-Gilberto Kassab, partido aposta no enfraquecimento de Flávio Bolsonaro e tenta ocupar o espaço político aberto pela maior crise da família Bolsonaro desde o início da corrida presidencial.

Foto: fatosefotosnews

Em política, o tempo vale tanto quanto os votos. Saber identificar o momento certo para agir pode ser decisivo na construção de uma candidatura competitiva. Foi exatamente essa leitura que levou o PSD a antecipar o lançamento de sua chapa presidencial, formada por Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab, justamente quando o principal grupo da direita brasileira enfrenta uma sucessão de crises que ameaça sua capacidade de permanecer unido até as eleições.

O movimento dificilmente pode ser tratado como mera coincidência. Nos últimos dias, o bolsonarismo passou a conviver com um desgaste incomum. Divergências familiares deixaram os bastidores e ganharam repercussão pública, tendo como principal símbolo o afastamento de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher. A decisão aprofundou as especulações sobre disputas internas por espaço político, influência partidária e controle dos mais de 100 milhões em recursos destinados à participação feminina na legenda.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para consolidar sua condição de candidato natural do campo conservador. Episódios recentes – Caso Master/Dark Horse – ampliaram o desgaste político do senador justamente quando sua campanha precisava transmitir estabilidade e capacidade de liderança. Nem mesmo antigos aliados contribuíram para reduzir a temperatura da crise. Pelo contrário. Declarações públicas – como as do Paulo Figueredo, que disse numa live que “as mulheres não sabem votar” – atingiram Michelle Bolsonaro e aumentaram a percepção de desorganização dentro do próprio grupo político.

Foi nesse ambiente que o PSD resolveu acelerar o calendário eleitoral. Em vez de esperar que as alianças nacionais amadurecessem naturalmente, o partido optou por apresentar desde já sua chapa completa. A decisão demonstra confiança no projeto político e, sobretudo, sinaliza que a legenda pretende disputar diretamente o eleitorado de centro-direita que hoje observa, com preocupação, os conflitos internos do bolsonarismo.

A escolha de Gilberto Kassab para compor a chapa também possui um significado estratégico. Além de presidir nacionalmente o PSD, Kassab construiu ao longo de décadas uma reconhecida capacidade de articulação política, mantendo diálogo com lideranças de diferentes correntes ideológicas e consolidando uma estrutura partidária presente em praticamente todo o país. Essa experiência pode ser decisiva para transformar uma candidatura regionalmente forte, como a de Caiado, em um projeto nacional.

Durante o lançamento da chapa, Kassab deixou claro que o partido respeitará as diferentes composições políticas existentes nos estados. Em várias unidades da Federação, os diretórios regionais mantêm alianças distintas da estratégia presidencial, realidade comum em partidos de grande capilaridade. Ainda assim, afirmou que a campanha terá presença nacional e que o objetivo será percorrer o país para ampliar o conhecimento da candidatura e construir competitividade até o primeiro turno.

Naturalmente, Caiado ainda precisa superar um obstáculo importante: transformar sua experiência administrativa e seu reconhecimento como bom governador de Goiás em intenção de voto nacional. Mas eleições presidenciais são dinâmicas. Lideranças crescem quando conseguem interpretar corretamente o ambiente político e oferecer ao eleitor uma alternativa no momento em que seus adversários demonstram fragilidade.

É exatamente essa oportunidade que o PSD acredita ter identificado. Enquanto o PL concentra esforços para administrar conflitos internos e evitar o aprofundamento da crise envolvendo sua principal família política, Caiado e Kassab procuram transmitir uma imagem de organização, previsibilidade e unidade.

Ainda é cedo para afirmar se essa estratégia será suficiente para levar o PSD ao segundo turno. O que já se pode dizer é que a disputa pela liderança da direita deixou de ser um confronto restrito ao bolsonarismo. Pela primeira vez nesta eleição, um partido decidiu enfrentar diretamente a hegemonia construída pela família Bolsonaro — e escolheu fazê-lo justamente quando essa hegemonia parece mais vulnerável.

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