Por Zé Américo Silva*
Há mais de vinte anos peço o mesmo prato naquele restaurante.
Há quem considere isso uma limitação. Outros, menos delicados, chamam de mania. Meu amigo Ary, o doutor Ary, entende perfeitamente: certos tournedos* au poivre dispensam aventuras. Quando se encontra um daqueles, a curiosidade passa a ser um risco desnecessário.
Naquela noite, o garçom me recebeu com a pergunta corriqueira:
— O de sempre?
Confirmei e me sentei. Ele sequer abriu o cardápio.
Na mesa em frente havia uma pequena reunião. Pessoas de idades diferentes, taças já servidas, uma conversa que de vez em quando desembocava em gargalhada. Nunca tinha visto nenhum deles. Não sabia se comemoravam alguma coisa ou se tinham apenas conseguido reunir, numa mesma noite, gente que vivia adiando encontros.
Foi quando ela virou o rosto.
Não aconteceu nada de extraordinário. Nenhum copo caiu, a música continuou tocando e o garçom passou entre as mesas carregando uma travessa. Ela me olhou por um instante, sorriu com a educação de quem percebe ter sido observada e voltou à conversa.
Eu ajeitei o guardanapo no colo.
Pouco depois, uma das mulheres daquela mesa chamou o garçom:
— Você não trouxe a vela?
Aniversário, portanto.
O garçom fez uma expressão aflita. Apalpou os bolsos do avental, olhou na direção do balcão e pediu um minuto. A aniversariante riu.
— Não precisa. Já passei da idade de apagar vela.
— Mas não passou da idade de fazer pedido — respondeu a amiga.
Talvez tenha sido o vinho. Talvez eu estivesse à vontade demais num lugar onde até o meu jantar era conhecido. O fato é que ouvi minha própria voz atravessar o corredor entre as mesas:
— Faça o pedido. A vela pode ser entregue depois.
Todos olharam para mim.
Ela apoiou o queixo na mão.
— E funciona?
— Nunca experimentei. Mas o restaurante é de confiança.
A mesa riu. Eu também. Achei que a minha participação terminaria ali.
Mas ela continuou me olhando.
— Já que o senhor entende do funcionamento da casa, pode recomendar alguma coisa?
— O tournedos au poivre.
— Sem hesitar?
— Há mais de vinte anos peço esse prato aqui.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Vinte anos pedindo a mesma coisa?
— Tenho uma testemunha. O doutor Ary. Embora ele seja suspeito, porque faz o mesmo.
— E nunca se arrependeu?
— Do prato, não.
Ela riu de um jeito diferente. Mais demorado.
Uma amiga se inclinou sobre a mesa:
— Pois está resolvido. Você reclamou que a gente não tinha trazido presente…
A aniversariante tentou interrompê-la, mas já era tarde.
— Trouxemos esse aí.
Olhei para os lados, como se pudesse haver outro candidato.
— Eu?
— O senhor mesmo.
— Nesse caso, espero que tenham guardado a nota.
Ela soltou uma gargalhada e puxou para perto de si a cadeira vazia.
— Venha. Quero examinar meu presente.
Meu jantar mudou de mesa.
O garçom transportou a taça, os talheres e, pouco depois, trouxe o tournedos. Fez tudo com a naturalidade de quem já vira acontecer naquele salão coisas bem mais improváveis.
Descobri que ela era de Brasília. Libriana. Tinha opiniões firmes, apesar de uma amiga garantir que levava quarenta minutos para escolher um sapato.
— Depende do sapato — ela se defendeu.
Contei que era baiano, escorpiano.
— Isso é um aviso? — perguntou.
— É informação cadastral.
A conversa seguiu. Falamos de cidades, de filhos, de viagens que tínhamos feito e de outras que continuavam dependendo de uma providência chamada “qualquer dia”. Em algum momento, ela provou o molho do meu prato.
Ficou em silêncio.
— Está explicado — disse.
— O quê?
— Os vinte anos.
Quando o bolo chegou, com uma vela finalmente encontrada, cantamos parabéns. Ela fechou os olhos antes de apagá-la. Não perguntei o que tinha pedido.
Na saída, demoramos ao lado dos carros. Os amigos se despediram com uma discrição exagerada, dessas que denunciam o esforço coletivo para deixar duas pessoas sozinhas.
— Gostou do presente? — arrisquei.
Ela abriu a bolsa, procurou o telefone e me entregou.
— Ainda estou conhecendo. Ponha seu número.
O resto levou tempo.
Houve mensagens escritas e apagadas, um primeiro encontro sem plateia, pequenas discordâncias e uma saudade que apareceu cedo demais para ser tratada como simples gentileza. Conhecemos os humores um do outro. Descobrimos o que fazia rir, o que magoava, quando era melhor perguntar e quando bastava ficar perto.
Voltamos muitas vezes àquele restaurante.
Numa dessas noites, o garçom se aproximou e perguntou:
— O de sempre?
Antes que eu respondesse, ela segurou minha mão sobre a toalha.
— Dois.
Ele anotou, embora não precisasse, e se afastou.
Ela então me contou que, naquela primeira noite, tinha feito o pedido antes da chegada da vela.
— Pedi uma boa surpresa.
— E veio um baiano.
— Escorpiano, ainda por cima.
Apertei sua mão.
Já havia roupa minha na casa dela, livros dela entre os meus e planos que nenhum dos dois fazia mais sozinho. A libriana de Brasília continuava levando tempo para certas escolhas. Naquela, porém, dizia que tinha sido rápida.
Eu, depois de vinte anos frequentando o mesmo restaurante, finalmente entendia por que ainda gostava tanto de voltar.
Ela estava sentada à minha frente.
*tuornedos – está grafado em francês e tanto serve para o singular quanto plural.
- Zé Américo Silva é jornalista e publicitário
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