Derrotado nas urnas, senador deixa o Brasil apesar de proibição judicial, enquanto investigações sobre bets e financiamento de filme cobram respostas
Foto: CNN/Reprodução
Flávio Bolsonaro queria governar o Brasil. Derrotado, deixou o país apesar de uma ordem judicial que o proibia de sair. Quem se apresentou como preparado para comandar a República precisa explicar por que não permaneceu nela para responder às investigações. A Polícia Federal já havia recebido, segundo a CNN Brasil, informações sobre um plano de saída em caso de derrota. A hipótese de preparação prévia exige apuração sobre organizadores, financiadores e eventuais facilitadores, sem antecipar condenações.
O pano de fundo são dois inquéritos. Um investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz. A CNN noticiou que Tomaz movimentou R$ 6,6 bilhões em apostas, enquanto os depósitos somaram R$ 325 milhões — cifras distintas, mas relevantes para dimensionar o caso. Também são examinados indícios de uma possível conta compartilhada, cuja existência é negada pelos envolvidos. Cabe à investigação esclarecer a origem dos recursos, os vínculos e as responsabilidades.
O outro envolve Daniel Vorcaro e o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. Negociar recursos não equivale a receber pessoalmente todo o valor. A Folha informou que Flávio negociou ao menos US$ 24 milhões e que documentos apontavam pagamento efetivo de pelo menos US$ 12,3 milhões. O senador afirma que os recursos são lícitos. A investigação deve esclarecer quem pagou, de onde veio o dinheiro, por quais estruturas passou e quem foi beneficiado.
A fuga também precisa ser reconstruída. O governo argentino confirmou a passagem de Flávio e da família pela fronteira terrestre e o embarque em voo privado para o Equador, de onde a aeronave seguiu para Miami. Registros migratórios, contratos e pagamentos podem identificar quem organizou e custeou cada etapa.
Mulher e filhas não devem receber, por parentesco, acusações dirigidas ao senador. A responsabilidade por sua conduta pública é dele; a presença da família, porém, não torna aceitável o descumprimento de uma ordem judicial.
O acolhimento americano amplia as questões diplomáticas. A Radioagência Nacional noticiou que Donald Trump declarou que autorizaria a entrada de Flávio. Isso não prova que Washington tenha organizado a saída, mas exige esclarecer a extensão de eventual colaboração.
Flávio também prometeu parcerias com os Estados Unidos para explorar terras raras. A agenda exige escrutínio: qualquer cooperação deve preservar autonomia, controle nacional e reciprocidade. Não há base para afirmar uma troca de proteção por riquezas, mas é legítimo exigir que interesses estratégicos brasileiros não sirvam a conveniências pessoais.
O Brasil precisa de investigação rigorosa, defesa assegurada e instituições capazes de fazer cumprir suas decisões. A derrota encerrou uma candidatura; a ida para Miami não encerra os inquéritos. Quem pediu ao povo a chave do país continua devendo respostas à Justiça brasileira.
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