Caminhada da Liberdade desafia 80 milímetros de chuva à tarde, mantém roteiro completo e exalta o tema “Descolonizar a África e libertar o Brasil”

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De baixo d’água, a manifestação em Salvador mostra por que é a maior ato do Dia da Conciência Negra do Brasil

Foto: Zé Américo Silva

A Caminhada da Liberdade 2025, promovida pelo Movimento Negro da Bahia em parceria com a Feneba, mostrou mais uma vez por que é um dos maiores e mais emblemáticos atos do Dia da Consciência Negra no país. A concentração começou no início da tarde e, às 13h30, o cortejo deixou a senzala do Barro Preto, no Curuzu, rumo ao Pelourinho — exatamente como previsto.

Pouco depois, já no avanço do percurso, a chuva chegou pesada. Foram mais de 80 mm ao longo da tarde, caindo com intensidade sobre Salvador. Mas, longe de desmobilizar, a água apenas ampliou o significado do ato. E não poderia ser diferente: era o dia de Oxóssi, Orixá da fartura, da mata e dos caminhos. Para muitos participantes, a chuva foi recebida como bênção, um sinal de proteção e renovação espiritual.

Enquanto diversos eventos previstos para o Dia da Consciência Negra foram cancelados por causa da tempestade, a Caminhada da Liberdade foi o único grande ato do dia que manteve integralmente sua programação.
O percurso foi cumprido do início ao fim, afirmando a força histórica e simbólica do movimento — uma demonstração de resistência, fé e continuidade.

Descolonizar a África e libertar o Brasil

Raimundo Bujão – FENEBA/MNU

O tema de 2025, “Descolonizar a África e libertar o Brasil”, deu o tom político do cortejo. A Caminhada reforçou as ligações profundas entre as lutas do povo negro brasileiro e as batalhas contemporâneas pela autonomia no continente africano.

Este ano, o ato prestou homenagem especial ao povo de Burkina Faso e ao seu jovem presidente, Ibrahim Traoré, figura internacional de destaque por enfrentar o neocolonialismo europeu e defender a soberania africana. Seu nome ecoou do Curuzu ao Pelourinho como símbolo de coragem, autonomia e ruptura com as estruturas coloniais ainda vigentes no mundo.

Chuva como consagração

Ao longo do trajeto, tambores, cânticos, orikis e danças tomaram conta das ruas, mesmo com água escorrendo pelas ladeiras. Homens, mulheres, crianças e idosos caminharam juntos em um movimento que a chuva — em vez de atrapalhar — transformou em ritual coletivo.
Para muitos, foi um verdadeiro batismo de Oxóssi: água que não paralisa, mas purifica, confirma e fortalece.

Avaliação dos organizadores

Ao final, no Pelourinho, o presidente do Forum de Entidades Negras da Bahia – Feneba, um dos líderes do Movimento Negro Unificado – MNU, Raimundo Bujão, destacou a dimensão histórica do ato:

“A chuva da tarde não apagou nossa força — nos consagrou. E sendo o dia de Oxóssi, isso tem ainda mais significado. Mantivemos todo o roteiro, enquanto tantos outros eventos precisaram cancelar. Hoje mostramos ao Brasil que o povo negro da Bahia não recua nem diante da tempestade. Marchamos debaixo d’água para afirmar que descolonizar a África é parte essencial de libertar o Brasil. A homenagem a Burkina Faso e ao presidente Traoré reforça que nossa luta é global: é por soberania, autonomia e libertação de todas as formas de colonialidade.”