Com 109 deputados federais, 14 senadores, 6 governadores e mais de 1300 prefeitos, a federação nasce com rosto, voz e, principalmente, projeto de poder
Foto: Reprodução TV
Por José Américo Silva*
A oficialização da federação entre o União Brasil e o Progressistas não é apenas mais um rearranjo partidário no tabuleiro da política brasileira — é a consolidação de uma nova força de centro-direita com musculatura suficiente para disputar o poder em 2026 sem precisar da chancela de Jair Bolsonaro. Com 109 deputados federais, 14 senadores, 6 governadores e mais de 1300 prefeitos, a federação nasce com rosto, voz e, principalmente, projeto de poder. E esse projeto já tem uma chapa em formação: Ronaldo Caiado, governador de Goiás, como cabeça de chapa, e a senadora Tereza Cristina, do Mato Grosso do Sul, como vice.
Essa movimentação sepulta, de forma definitiva, a possibilidade de uma candidatura bolsonarista de “puro-sangue” com poderes absolutos para Jair Bolsonaro escolher e ungir seu sucessor. O ex-presidente, desgastado por inquéritos, inelegibilidade e um círculo cada vez mais restrito de apoio, vê agora sua influência ser institucionalmente esvaziada por uma aliança que, embora tenha raízes na direita tradicional, rejeita o populismo messiânico e o discurso antissistema que caracterizaram o bolsonarismo desde 2018.
Nova direita, novo discurso
A federação entre União Brasil e Progressistas representa um movimento pragmático: une dois partidos historicamente fortes nas bases municipais, com presença capilar e quadros políticos experientes, e sinaliza a construção de uma direita liberal-conservadora mais afeita à institucionalidade, ao agronegócio e à economia de mercado, em detrimento das guerras culturais e da retórica beligerante.
Ronaldo Caiado é um nome que reúne qualidades cada vez mais valorizadas pelo eleitorado conservador moderado: trajetória consistente, governança eficiente e discurso firme, mas sem o radicalismo ideológico que marcou a era Bolsonaro. Já Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, carrega o selo do agro, uma das forças econômicas e eleitorais mais relevantes do país, e tem boa interlocução no Congresso e no empresariado.
Efeito dominó no Congresso e nos estados
No Congresso Nacional, a federação surge como a maior força da oposição ao governo Lula — e com condições reais de liderar uma frente de centro-direita capaz de barrar pautas impopulares, pressionar o Executivo e disputar a narrativa pública. A governabilidade do Planalto, já fragilizada pela fragmentação partidária, deve enfrentar um novo nível de desafio com uma federação organizada e coesa.
Nos estados, a federação também poderá redefinir o equilíbrio político. Com seis governadores e centenas de prefeitos, os partidos agora federados ganham maior capacidade de articulação regional, financiamento de campanhas e influência sobre candidaturas locais. A eleição municipal de 2024 será um teste importante: o desempenho dos candidatos apoiados pela federação poderá consolidar seu protagonismo e dar lastro político para 2026.
Fim do bolsonarismo como força hegemônica
Mais do que um rearranjo técnico, a federação é um recado direto ao bolsonarismo: a direita institucionalizada decidiu seguir outro caminho. Isso não significa que o bolsonarismo desaparecerá — sua base permanece relevante e ativa, sobretudo nas redes sociais —, mas a tendência é que se transforme numa força satélite, incapaz de liderar o campo conservador sem alianças. A prisão de aliados, a fragilidade jurídica de Bolsonaro e o desgaste de sua retórica conspiratória enfraqueceram sua capacidade de articulação.
Rumo a 2026
A candidatura de Caiado e Tereza Cristina, caso se consolide, reúne atributos estratégicos: força no Centro-Oeste, respaldo no agronegócio, trânsito no Congresso, experiência de gestão e discurso equilibrado. Representa uma tentativa de refundar a direita brasileira longe dos extremos, mas sem ceder ao progressismo lulista.
O jogo começou — e, pela primeira vez desde 2018, a direita brasileira parece disposta a virar a página do bolsonarismo e escrever uma nova história. Resta saber se o eleitorado conservador acompanhará esse movimento ou continuará preso à nostalgia autoritária do passado recente.
*José Américo Silva é jornalista e publicitário
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