Operação Compliance Zero: PF prende dono do Banco Master e expõe suspeita de fraude bilionária no sistema financeiro

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A ação da PF cumpre sete mandados de prisão – cinco preventivas e duas temporárias – e 25 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia

 

Foto: Reprodução/TV

Uma megaoperação da Polícia Federal chacoalhou, nesta terça-feira (18), as engrenagens do sistema financeiro nacional e colocou no centro do furacão um dos nomes mais badalados do mercado bancário brasileiro: Daniel Bueno Vorcaro, dono do Banco Master. Ele foi preso preventivamente em São Paulo no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada para investigar a emissão e negociação de títulos de crédito falsos por instituições financeiras.

A ação da PF cumpre sete mandados de prisão – cinco preventivas e duas temporárias – e 25 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia. Segundo nota oficial, o objetivo é desmontar um esquema de “fabricação” de carteiras de crédito insubsistentes, vendidas a outro banco e, posteriormente, substituídas por ativos igualmente problemáticos após fiscalização do Banco Central.

No centro das investigações está o Banco Master, controlado por Vorcaro, e operações envolvendo o Banco de Brasília (BRB), instituição pública do DF. De acordo com reportagens de veículos nacionais, a PF apura se o Master teria emitido títulos de crédito falsos, vendidos ao BRB, em um arranjo que levantou série de alertas no BC. Após a intervenção do regulador, esses papéis teriam sido trocados por outros ativos sem avaliação técnica adequada, o que reforçou as suspeitas de fraude estruturada.

O impacto foi imediato: no mesmo dia em que a PF saiu às ruas com a Compliance Zero, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, determinando também a indisponibilidade dos bens dos controladores e ex-administradores da instituição. A liquidação ocorre após o BC já ter barrado, em setembro, a tentativa de compra de 58% do Master pelo BRB, justamente por considerar elevados os riscos envolvidos na operação.

Além de Vorcaro, outro nome de peso do Master, o banqueiro Augusto Lima – ex-CEO do banco e seu sócio – também está entre os alvos da operação e foi preso, segundo a imprensa. Agentes da PF cumpriram mandados em endereços de alto padrão, incluindo mansões no Park Way, em Brasília, numa ofensiva que mira o coração de um grupo que, até ontem, se vendia ao mercado como case de sucesso e alta rentabilidade.

De acordo com a PF, os investigados podem responder por gestão fraudulenta, gestão temerária, organização criminosa e outros crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. As investigações começaram em 2024, a partir de uma requisição do Ministério Público Federal, após indícios de que carteiras inteiras de crédito poderiam existir apenas “no papel”, sem lastro econômico real – uma bomba-relógio escondida dentro de balanços e relatórios que deveriam inspirar confiança.

Para o mercado, a operação tem efeito de terremoto. Não é apenas um banco médio em liquidação: é um recado direto sobre os limites do jogo financeiro num momento em que instituições disputam investidores oferecendo retornos agressivos e produtos cada vez mais complexos. No caso do Master, analistas já vinham questionando, desde o fim de 2024, a sustentabilidade dos altos retornos prometidos em seus CDBs – desconfiança que agora ganha contornos criminais nas mãos da PF e do BC.

A Compliance Zero também coloca sob holofotes a governança de bancos públicos e o uso de recursos de instituições ligadas ao Estado em operações de alto risco. Buscas na sede do BRB e a associação do caso a uma tentativa de aquisição bilionária do Master levantam uma pergunta incômoda: quem vigiava os guardiões do dinheiro público enquanto carteiras suspeitas circulavam entre instituições sob rígida supervisão do regulador?

Por enquanto, todas as informações apontam para um esquema ainda em fase de apuração. Vorcaro, Lima e os demais alvos da operação seguem na condição de investigados, com direito à ampla defesa e ao contraditório. Mas o fato é que, com a Compliance Zero, a PF e o Banco Central jogaram luz sobre um ponto sensível do sistema financeiro: quando a busca por rentabilidade cruza a linha da legalidade, não é só um banco que cai – é a confiança de todo o mercado que vai para o centro do vendaval.